Notas para uma crítica da Teoria do Desejo Mimético Girardiano

Por Daniel Tutt, via Daniel Tutt, traduzido por Felipe Campos

Introdução

No breve texto “Introdução ao Narcisismo”, Freud escreve que “o narcisismo não é uma perversão, mas o complemento libidinal do egoísmo do instinto de autopreservação, que pode em certa medida ser justificadamente atribuído a toda criatura.” [1] O ensaio de Freud foi escrito bem na época em que fugia da influência de Jung em 1914. Quando os dois se encontraram sete anos antes, eles se comprometeram a uma plena solidariedade intelectual entre si, o que Freud certa vez classificou como um “comunismo de ideias” numa carta a Jung. Não entraremos na dinâmica política que levou à dissolução das relações entre eles, a não ser para evidenciar um importante debate que surgiu sobre a base “não sexual” da histeria e da paranoia.

Freud observou uma sublimação não sexual da homossexualidade em seus pacientes paranoicos. Ele observou que os paranoicos procuravam se proteger de qualquer catexia instintiva social excessivamente sexualizada, razão pela qual Freud disse que é “a sublimação que aflige os paranoicos”. [2] Mikkel Borch-Jacobsen argumenta que, no ensaio “Introdução ao Narcisismo“, Freud procurou remover a rivalidade — a natureza mimética do desejo — no desenvolvimento de seu pensamento e que a verdadeira rivalidade entre ele e Jung formou uma ‘outra cena’ pela qual essa evasão do desejo mimético ocorreu para Freud.

Para Freud, a ilusão de grandeza no narcisismo “não é um retorno à solidão original de uma mônada enclausurada em si mesma.” [3] Isso significa que, quando desejo um objeto, desejo a mim mesmo nele. Para realizar-me, na opinião de Freud, devo assemelhar-me a mim mesmo. O mito de narciso é o que acrescenta a palavra alemã selbst (auto) ao léxico de Freud, o que implicitamente significa que o ego já é desde sempre homossexual, ou seja, o primeiro outro é sempre primeiramente eu.

Há uma alteridade interior no relato de Freud sobre o sujeito, o sujeito é formulado numa estrutura cômica; se o que dou ao outro sou eu mesmo, o que reconheço no outro, o que amo no outro, sou eu mesmo. Há um ciclo recorrente em que o sujeito encontra uma alteridade que é sempre uma alteridade duplicada, a alteridade em mim, a alteridade no outro, e assim por diante.

Freud conclui “Introdução ao Narcisismo” com a seguinte afirmação: “O ideal do ego abre um caminho importante para a compreensão da psicologia de grupo. Além do seu lado individual, esse ideal tem um lado social; é também a ideia comum de família, de classe ou de nação.” [4] O ideal do ego é o que se deseja ser. É o objeto de assimilação. Há um duplo processo em ação no ideal: o Idealbildung envolve a construção de um ideal interno através de uma internalização mimética de um ideal externo. O ego fala consigo mesmo como os outros falam com ele, ele imita esse discurso e dessa mímica nasce a “consciência moral”. O ego não está lidando com uma outra forma de imitação em sua formação que impõe a exigência imitativa: “seja como eu” etc. o ego está imitando a si mesmo.

Mas essa ideia de um ‘ego primário’ não faz sentido porque, se isso fosse verdade, o ego se encarnaria como lei, voz, ideal. Se o sujeito está no início, por que se sujeitaria? Na opinião de Borch-Jacobsen, que partilha com René Girard, não existe um “eu mimético” que precede uma identificação que temos com outras pessoas. Só através da própria identificação é que o sujeito passa a existir. [5] Se o desejo é mimético e êmulo, isso significa que o próprio desejo é o que procura substituir o outro e é o processo de identificação que traz o sujeito à existência. O desejo como tal não existe até que seja encenado ou apresentado para o sujeito para que seja desejado.

Em The Freudian Subject, Borch-Jacobsen argumenta que a teoria freudiana do sujeito é um ‘sujeito mimetizado’, o que significa que Freud tem uma teoria do desejo mimético, mas ela perde sua centralidade no próprio relato da psique que ele desenvolve. Na opinião de Borch-Jacobsen, o desejo tem mais a ver com “ser” do que com “ter”. O desejo não é proibitivo devido a algum tipo de impasse constitutivo no gozo, como encontramos em Lacan, e nem o desejo é formado pela imaginação ou alucinação de um objeto. Desde o início, o desejo é mimético e êmulo, ele é construído em torno de um impulso para substituir o outro. Girard escreve em Violência Sagrada que

“A rivalidade não surge pela convergência fortuita de dois desejos por um único objeto; antes, o sujeito deseja o objeto porque o rival o deseja. Ao desejar um objeto, o rival alerta o sujeito para a desejabilidade do objeto. O rival, portanto, serve de modelo para o sujeito, não apenas no que diz respeito a questões secundárias como estilo e opiniões, mas também, e mais essencialmente, no que diz respeito aos desejos.” [6]

Girard argumenta que o pensamento de Freud é “uma última capitulação ao pensamento mitológico”, uma manifestação final daquela antiga crença de que a violência humana pode ser atribuída a alguma influência externa — aos deuses, ao Destino, a alguma força que os homens dificilmente podem controlar. O freudismo, na opinião de Girard, é um modo de pensar que se recusa a confrontar diretamente os conflitos humanos. É um subterfúgio, um artifício que tenta encontrar um bode expiatório dentro de um contexto em que encontrar o tal bode fica cada vez mais difícil.

No livro Deceit, Desire and the Novel, Girard introduz o conceito de “triângulo do desejo”, que diagramei para demonstrar os principais movimentos na teoria do desejo mimético.

DIAGRAMA

É importante notar que Girard tem uma teoria do inconsciente, mas não é uma teoria repressiva do inconsciente, e sim formada em torno de uma recusa do “modelo-obstáculo”.

Em Violência Sagrada, ele observa que “quanto mais frenético o processo mimético se torna, apanhado na confusão de formas em constante mudança, menos os homens estão dispostos a reconhecer que fizeram do modelo um obstáculo e um modelo do obstáculo.”

Aqui encontramos um verdadeiro “inconsciente”, escreve ele, um “inconsciente” que pode obviamente assumir muitas formas. [7] Girard supõe ter desvendado um mistério curioso que promete pacificar e desvelar um traço fundamental de todas as relações humanas, e revelar “o duplo laço universal dos desejos imitados.”

Borch-Jacobsen em Misreading of Freud’s Group Psychology:

Com esse background na teoria mimética Girardiana, podemos agora retornar à crítica que Borch-Jacobsen faz a Freud. Para defender sua afirmação de que a identificação desempenha um papel tão central na formação do sujeito, Borch-Jacobsen argumenta que a análise do ego já é sempre uma análise social, e é verdade que Freud busca uma “socialização da psique.” [8] Freud situa no vínculo com o outro uma oposição fundamental entre “atos psíquicos narcisistas” e “atos psíquicos sociais.” Ele argumenta que a teoria do vínculo social de Freud deve ser entendida retroagindo ao que “as relações sociais pressupõem.” Nenhuma relação social pode acontecer sem que se compreenda quem detém a chave do “antes” e este mesmo sujeito também detém a chave do “depois.” [9]

Em Totem e Tabu, Freud desenvolve uma teoria do que vem ‘antes’ em um estudo da ontogênese das relações sociais que situam a base mais primordial de nossas relações sociais. A oposição que Freud desenvolve aqui, que é uma oposição inerente à psicologia social, é entre atos narcisistas que não dizem respeito aos outros e não dependem dos outros, invisível à sociabilidade, e aqueles que dizem respeito aos outros. A questão diz respeito ao que é primordial na sociabilidade: a sociabilidade começa na fase de transição para o objeto, de encontro com os outros face a face? Ou ela precede o posicionamento dos outros, o que significa o posicionamento do ego também? [10]

Em Psicologia das Massas e Análise do Eu, a multidão é estudada como “um fenômeno aparentemente marginal ou até transgressor, com respeito à sociabilidade normal”, mas ela continua importante porque “manifesta melhor do que as instituições as essências mais profundas da sociabilidade normal”. [11] As massas são escolhidas como unidade primordial de análise por Freud devido à influência de Gustave Le Bon e seu marcante livro Psicologia das Multidões (1895), de que Freud trata, em particular a afirmação de que a multidão produz um vínculo social hipnótico com o líder. Para Freud, a multidão “desnuda o substrato inconsciente”, ela age como um único indivíduo e seus integrantes são movidos por um “inconsciente ancestral.”

Para Freud, a psicologia das massas é nada mais que a psicologia do inconsciente, o que significa ipso facto que o inconsciente se encontra no grupo coletivo. Mas para Le Bon a multidão não tem base subjetiva; a multidão é um útero associado à histeria. Ela não tem alma. Le Bon segue um caminho fadado ao erro ao compreender os sujeitos das multidões como aparelhos enfeitiçados pela multidão.

Em contraste, a multidão inconsciente de Freud é um sujeito “monádico” associal e, em vez da hipnose como base da psicologia pré-individual da multidão, é o inconsciente que é a força motriz primordial de qualquer multidão. Isso significa que não há agência na multidão, há um “outro” que é sugestivo na multidão, uma sugestão que seus membros não conseguem localizar ou prever. Essa é a infame “teoria da sugestão”, que, para Le Bon, “o comando (a ordem sugestionada) é sempre mais antigo do que os sujeitos que ele dirige, ele não pertence a ninguém” [12] e o líder surge como “uma garantia final do corpo social.” [13] Para Le Bon, o líder é o sujeito: o político e o sujeito são um só. Contrariando essa hipótese, Freud argumenta que é eros que une o grupo e forma o vínculo social. [14] É eros (afeto) que funciona como o vínculo social primitivo, a “banda primordial.”

Mas notavelmente, o vínculo social é paradoxal – voltamos agora ao ensaio do narcisismo – no sentido de que os sujeitos ‘se sujeitam’ a um líder. The subject does not bind; it binds itself. Portanto, todo vínculo social é um impasse e o papel do líder no local do vínculo social nunca é totalmente resolvido para Freud. Como Borch-Jacobsen escreve:

“A falta de liberdade individual, “princípio da psicologia de grupo”, não resulta, portanto, de um constrangimento imposto pela força, nem de um contrato social de caráter jurídico, nem de uma sugestionabilidade natural, mas de uma espécie de sedução destinada a extorquir de cada Narciso a dádiva da sua liberdade.” [15]

Se o amor pelo líder é o primeiro vínculo, é o amor pelo líder que cria a igualdade no grupo. A organização do grupo cria a mesma estrutura que a da família e, assim, o desaparecimento de qualquer líder, seja ele religioso, político ou ideológico representa um risco de “desencadeamento de violência.” A ideia de um grupo sem liderança introduz o afeto do pânico na equação, e agora temos dois afetos primordiais em ação em grupos e multidões, ou o que Freud chama de “grupos espontâneos.” É uma grande omissão em The Freudian Subject que Borch-Jacobsen não faça a distinção entre “grupos artificiais” e “grupos espontâneos”, pois tudo depende dessa distinção. Além disso, é essa distinção que separa Freud da análise aristocrática e burguesa de Le Bon sobre grupos e multidões.

Grupos artificiais (a igreja, o exército, a escola, etc.) mantêm os sujeitos numa relação semelhante à dependência infantil. Neste sentido, são Edipianos, mas de tal forma que a função do líder não está necessariamente ligada ao eros. Os grupos artificiais dependem de laços sociais em que existe um vínculo libidinal não sexual, enquanto no grupo espontâneo ou revolucionário o vínculo de eros é qualitativamente diferente. Defendo que essa é uma das razões pelas quais a Psicologia das Massas de Freud é tão útil para o estudo Marxista, ela nos fornece uma compreensão dos grupos que se opõem aos grupos burgueses ou ‘artificiais’.

Seria demasiado banal da parte de Freud dizer que os grupos não podem não ter uma liderança ou que se baseiam no eros dos laços narcisistas individuais entre um grupo e, por conseguinte, tornam-se autômatos que obedecem à vontade do líder sem pensar. Mas é isso que Borch-Jacobsen sugere, que Freud nunca foge da teoria hipnótica de Le Bon em sua análise de grupos. Ele argumenta que o conceito-chave é a identificação. Quando Freud escreve que “os laços libidinais não são a única forma de vínculo com outras pessoas” [16], ele aponta para o fato de que os laços de identificação são o que unem as multidões:

“O desaparecimento do vínculo político-libidinal que garantiu a coesão do grupo não liberta os egos narcísicos de forma pura e simples. De certa forma, não liberta absolutamente nada, especialmente não os sujeitos autônomos (indivíduos), uma vez que o pânico consiste precisamente num transbordamento incontrolável do ego por meio de (pelos afetos de) outros; ou, dito de outra forma, o pânico consiste numa epidemia de narcisismo mimético e contagioso.” [17]

O paradoxo que Freud atinge em Psicologia das Massas é o seguinte: os indivíduos estão abertos uns aos outros através do afeto do pânico, da mesma forma que são atraídos pelo amor. E no capítulo quatro de Psicologia das Massas, ele escreve que é a identificação que “me faz experimentar o mesmo afeto que outra pessoa, assim como a sugestão verbal me faz pensar como a outra pessoa que faz a sugestão, assim como a imitação me faz reproduzir a conduta do modelo.” O que isso indica para Borch-Jacobsen é que as relações miméticas e o desejo mimético estão ligados à teoria da identificação de Freud em Psicologia das Massas.

Se o laço libidinal com o líder produz pânico no momento em que o líder é removido ou se ausenta do vínculo social, então o vínculo social deve ter alguma relação com o vínculo violento de ‘cada um contra todos’, que é o vínculo constante da sociedade burguesa. Como Freud comenta, “é apenas na destruição erótica do objeto que a morte e a vida surgem.” O problema então passa a ser como um grupo pode ser composto por um vínculo não libidinal sem o pânico de uma figura paterna. Mas, como mencionamos acima, isso já é dominado em grupos artificiais da sociedade burguesa. Assim, Borch-Jacobsen se confunde ao perder de vista a distinção crítica entre os diferentes tipos de grupos que Freud analisa. Entre esses grupos, existem três tipos de vínculos de identificação:

Vínculo emocional com um objeto

Um substituto para um objeto libidinal.

Um vínculo por meio de uma qualidade comum partilhada entre o grupo e que não é libidinal. [18]

Deve haver dois vínculos distintos para que Freud produza a solução Edipiana para o grupo: o primeiro é um vínculo sobre um modelo ideal e o segundo é um objeto ideal. Uma vez que Freud insiste que a identificação se dá na pré-história do inconsciente, antes mesmo do momento de identificação mimética pela qual o grupo passa, a questão passa a ser se o afeto é produzido antes do vínculo social ou se está ligado aos processos de identificação no vínculo social.

“Não devemos nos enganar sobre isso: ao declarar que a solidariedade procede da identificação, de forma alguma Freud pretende fazer do afeto um efeito da mimese; muito pelo contrário. O conceito de identificação, tal como ele o utiliza, tem precisamente a função de inverter a relação mimese-afeto implícita no conceito de solidariedade. Significa que o afeto precede a mimese em vez de ser produzido ou induzido por ela.” [19]

Colocar-se no lugar do Outro “pressupõe sempre o sentimento de si mesmo e o sentimento em si.” O ponto principal de Borch-Jacobsen – que sublinha o seu argumento mais amplo sobre o desejo mimético e a identificação – é que o afeto não vem do Outro, é inteiramente próprio. “Começo tendo um sentimento e depois me identifico.”

E isso fica claro no próprio Freud quando escreve: “já começamos a prever que o vínculo mútuo entre os membros de um grupo é da natureza de uma identificação desse tipo, baseada em uma qualidade emocional importante em comum: e podemos suspeitar que essa qualidade comum reside na natureza do vínculo com o líder.” [20] Ele argumenta que o vínculo é formado em um ponto abissal de identificação, onde nenhuma Lei pode servir de base para a sociedade:

“Pois a Lei (o ideal do ego, o Outro, o Pai, o Nome do Pai, ou o que quer que se queira chamá-lo) será sempre “eu”, o Ego, na minha identidade impossível. E a base, o vínculo fundador da sociedade, é, portanto, ela própria sem fundamento. O edifício da sociedade não tem alicerce.” [21]

Borch-Jacobsen pressupõe que nenhum dos escritos sociais de Freud contenham uma crítica da sociedade burguesa. Qual é a identificação em ação no grupo artificial? Como Léon Rozitchner observa em Freud and the Limits of Bourgeois Individualism [Freud e os limites do individualismo burguês], o desejo é “que o fundamento do meu ser permaneça eternamente no lugar e que sirva de suporte subjetivo para a eterna permanência dos sistemas, das instituições e da negação do tempo histórico.”

No grupo burguês, os laços duradouros com o pai são reafirmados através do líder na duração dos laços que me ligam ao global. Trata-se de uma forma de dependência repressiva que se originou no âmago da forma social que é a família burguesa e se prolonga nas instituições sociais. Os grupos artificiais, como a igreja ou o exército, preservam a mesma forma de dependência que o adulto fechado mantém na preservação da sua sensibilidade infantil.

O que torna a teoria dos grupos de Freud tão radical é exatamente a noção de líder. É a distinção entre o diretor do grupo artificial e o líder das massas numa revolta espontânea que move a história, logo o eros direcionado ao líder de um grupo que é uma ruptura do grupo artificial é qualitativamente distinto do vínculo de grupo artificial. Mais uma vez, esta distinção está totalmente ausente em Borch-Jacobsen.

Girard e Borch-Jacobsen argumentam que não há identificação primordial, a rivalidade pode ser identificada no próprio encontro com o duplo rival. Freud não precisou transpor suas rivalidades com Jung para uma base pré-social primordial para resolver o problema. Como disse certa vez Gillian Rose sobre Girard, em The Broken Middle, “todo desejo é mobilizado a serviço do nada, do qual apenas o romancista ou o membro do grupo desiste de ser uma vítima eterna e desiste de ver sua amada como uma divindade monstruosa.” A teoria do desejo mimético de Girard permanece como uma refutação Gnóstica a Freud, e o Gnosticismo em Girard argumenta que não resta nenhum mistério antes da identificação rival. O conhecimento direto desse escândalo rival tornou-se evidente. Mas o problema desse Gnosticismo banal reside no fato de Girard ver efetivamente a “vítima do bode expiatório” em todos os processos sociais de identificação. O Girardiano possui agora uma capacidade transparente de tratar a crise do vínculo duplo e de localizar e restaurar uma “direção comum para todos”, bem como de “explicar mitos de origem.”

A teoria do desejo mimético de Girard é útil para levantar o véu sobre os mecanismos de rivalidade mimética, mas o que ainda não foi totalmente enfrentado é como as prescrições de Girard para tratar a violência do vínculo social resultam numa suspensão conservadora de toda rivalidade. Como argumento no meu livro, essa tendência pacificadora faz do pensamento Girardiano um parceiro inadequado para a análise Marxista e socialista.

Para Freud, o hipnotismo deve ser abandonado porque a autoridade deve ser pensada “antes da teoria (e) do sujeito”, mas isso só leva Freud a ser incapaz de pensar a identificação adequadamente, de acordo com Borch-Jacobsen. Se em toda a teoria do vínculo social de Freud “os membros do grupo são levados pela sugestão, por meio da identificação” [22], então Freud não consegue vislumbrar como a própria hipnose dissolve a autoridade, e isso leva Borch-Jacobsen a argumentar que o sujeito de Freud permanece em ‘servidão voluntária’ devido ao resíduo de hipnose que Freud nunca efetivamente contorna: “o objeto-colocado-no-lugar-do-ego-ideal não é amado, ele hipnotiza, e este objeto é o líder, o Fuhrer.” [23]

A constituição libidinal do grupo é formada em torno da hipnose, onde permanece algo que Freud se recusa a enfrentar. Em “Note on the Unconscious in Psychoanalysis”, Freud indica que a hipnose é o estado pelo qual o sujeito obedece à lei:

“Mas não a totalidade (da ordem) emergiu na consciência: apenas a concepção do ato a ser executado. Todas as outras ideias associadas a essa concepção – a ordem, a influência do médico, a lembrança do estado hipnótico – permaneceram inconscientes mesmo então.” [24]

Borch-Jacobsen diz que é “na hipnose, [onde] encontramos um esquecimento do Outro” – o comando do hipnotizador não dá ordem ao sujeito porque nunca se apresenta à consciência. [25] O comando do líder obriga além de qualquer desejo de submissão e de qualquer servidão voluntária – o sujeito se retira do que ele ordena: o sujeito “não sabe que está obedecendo.” [26]

Borch-Jacobsen não vislumbra a lógica do processo de identificação envolvido com o ideal do ego e como ele é tomado pelo ideal do grupo. Nesse processo, descobre-se uma nova forma coletiva do ideal do ego, e nesse momento, como os primeiros seres humanos na origem, o indivíduo descobre a possibilidade de uma aliança fraterna em oposição às relações de submissão ao seu poder opressivo, que é o prolongamento atual do pai primordial no grupo artificial.

Como Balibar demonstrou em seu ensaio “The Invention of the Superego” [A Invenção do Superego], o sujeito freudiano não é pensado em uma relação de servidão voluntária, como Borch-Jacobsen supõe, e essa nem é a condição do sujeito no grupo artificial. Desenvolvo uma análise das razões pelas quais este não é o caso no capítulo três do meu livro.

Referências:

[1] Freud, “On Narcissism,” p. 73 – 74

[2] Ibid, p.83.

[3] Ibid, p.93.

[4] Freud, Group Psychology, p. 101

[5] Borch-Jacobsen, p. 47

[6] Girard, 154 – 155

[7] Girard, Violence and the Sacred, p. 199

[8]  Freud, Group Psychology and the Analysis of the Ego p. 129

[9] Borch-Jacobsen, pps. 130 – 131

[10] Ibid, p.135

[11] Ibid, p.135.

[12] Borch-Jacobsen, 143

[13] Ibid, p.145.

[14] Borch-Jacobsen, 155 – 156

[15] Ibid, p.162.

[16] Freud, Group Psychology, 103

[17] Ibid, p.166-167.

[18] Freud, Sigmund, Group Psychology 107 – 108

[19] Borch-Jacobsen, 108

[20] Freud, Sigmund, Group Psychology 108

[21] Borch-Jacobsen, The Freudian Subject p225

[22] Freud, Group Psychology, p. 130

[23] Freud, Group Psychology, 226

[24] Freud, Note on the Unconscious, p. 12:261

[25] Borch-Jacobsen, The Freudian Subject pps. 229 – 230

[26] Ibid, p. 230.

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