Sobre a agitação – um clássico da social-democracia russa

Por Arkadi Kremer e Julius Martov, via People’s War, traduzido por Camila Araujo

Escrito em 1893 e traduzido do russo para o inglês por Richard Taylor.

I

Nosso artigo pretende esclarecer várias questões relacionadas à prática dos sociais democratas russos: a resolução correta para essas questões é, na nossa opinião, uma pré-condição necessária se a atividade social democrata visa atingir seus objetivos desejados. Baseado na nossa experiência e na informação que temos na atividade de outros grupos, chegamos a conclusão que os primeiros passos tomados pelos social-democratas russos foram errados e que, nos interesses da causa, a tática deles teve que mudar. Nós tentamos portanto nesse artigo mostrar a direção na qual a atividade dos social-democratas deveria mudar, quais tarefas eles deviam definir para evitar o risco de permanecer tão impotentes ao final do dia quanto eles eram no começo dele. O artigo foi escrito tendo em mente leitores entre os intelectuais e operários avançados; era especialmente importante para nós influenciar as convicções deste último, porque a maioria dos operários social-democratas simpatiza com a atividade prática que nós condenamos como inúteis. Esse não é o local para ir nas causas desse fenômeno; essa questão é parcialmente elucidada no próprio artigo e, em todo o caso, nós estamos convencidos que, desde que a maioria dos operários avançados não concordem que precisamos trabalhar na direção indicada, o futuro do nosso movimento operário permanece em dúvida. 

Se nosso artigo ao menos leva a uma polêmica na questão que nos interessa, nós devemos nos considerar satisfeitos: de uma maneira ou de outra, a polêmica vai servir ao propósito, pois terá colocado em exame uma questão que, até agora, foi decidida por círculos fechados separados.

O movimento operário é o resultado inevitável de contradições inerentes na produção capitalista. No que diz respeito à massa operária, as contradições na produção capitalista consiste nas mudanças das condições de vida e nas concepções do povo provocadas pelo sistema capitalista que tornam essa massa cada vez menos sujeita à exploração. Exigindo que os homens sejam autômatos, subordinados inquestionavelmente à vontade do capital, esse sistema prepara o terreno para o surgimento entre os operários de homens pensantes e infunde nos operários a compreensão de seus interesses. Se o capitalismo requer a automatização dos operários em troca de erradicar a possibilidade de luta contra o capital, ele, por sua vez, reúne os operários e os reúne em uma única oficina, um único assentamento, um único centro de manufatura. Se o capitalismo requer que operários não tenham consciência da oposição entre o interesse do capital para o interesse do trabalho, o mesmo sistema, com sua concentração de capital, torna ainda mais aguda a distinção entre a posição dos capitalistas e dos operários. Se a diferenciação dos operários serve ao capitalismo, porque leva a atomização, o desenvolvimento técnico ao mesmo tempo destrói essa diferenciação e reduz a maioria dos operários ao nível de operários não qualificados. Se convém ao capitalista que a família do operário seja forte e o impeça de uma luta muito apaixonada com o capital, então, por outro lado, este último emancipa o operário de sua família e derrete sua esposa e filhos neste mesmo cadinho da vida fabril. Em suma, se o capital, diante da ameaça de sua própria ruína, é obrigado a tentar erguer obstáculos ao desenvolvimento da classe operária, está, por outro lado, destruindo o próprio edifício e preparando uma força que é hostil e perigosa para ele. É verdade que, em um certo nível de seu desenvolvimento, o mesmo sistema capitalista preparou uma poderosa arma para a luta mesmo contra o proletariado unido, mas então como uma arma, tem dois gumes. Lutar contra isso, a força que criou e desenvolveu, a sociedade capitalista sufoca e apressa a própria destruição. É suficiente mencionar o exército de reserva de operários, que pesa na população trabalhadora como um moedor e paralisa o sucesso da luta. Mas o aumento do exército operário que forma essa reserva restringe o mercado interno, pois torna cada vez mais difícil para a população trabalhadora arcar com o peso dos impostos, que a passagem da tributação indireta para a direta dá origem; enfim, esse exército requer assistência estatal (sem falar nos aumentos de gastos com polícia, tribunais e prisões) que leva a um crescimento nos gastos estatais. 

A primeira consequência é que o capitalista é forçado a buscar novos mercados, o que se torna mais e mais difícil, e isso leva a frequentes, e então permanentes, crises, e as crises levam a perdas no lugar de lucros, a redução de alguns capitalistas as fileiras do proletariado, a destruição de uma parte do capital. As mudanças no sistema de taxação e o aumento nos gastos causados por membros do exército de reserva leva a um aumento maior de parte dos lucros ao uso do estado e, como lucro é reduzido, então, consequentemente, também é a acumulação. Mas essas novas contradições resultam no desejo de aumentar a exploração e melhorar ainda mais a técnica em uma cada vez mais acirrada competição e outros fenômenos similares, o que, como vimos acima, vai levar a consequências que não contribuem para os objetivos do capitalismo – eles desenvolvem força e um grau de hostilidade na massa operária em torno da ordem existente. Assim, as contradições inerentes em um certo estágio do desenvolvimento capitalista dirigem a massa operária contra o capital. Quanto mais avança o desenvolvimento da produção capitalista, mais acirrada deve se tornar essa luta e mais longe se estenderão as demandas e a consciência da massa operária. Consequentemente, o capitalismo é uma escola, não apenas material de treinamento – militantes operários – mas também de educar e impressionar com suas contradições evidentes. A ideia do socialismo como algo concretamente possível só poderia ser elaborada com base no sistema capitalista e, além disso, apenas em um determinado estágio de seu desenvolvimento.

Mas como a escola do capitalismo atua na massa operária? 

Reunir os operários ainda não significa uni-los para a luta. A concentração do proletariado é um solo fértil para o movimento. Se o capitalismo fosse capaz de satisfazer constantemente o operário nas suas necessidades diárias, então essa unificação não desempenharia um papel revolucionário. Mas o capitalismo, que depende de competição e da ausência de planejamento na produção, constantemente força empreendedores individuais de se empenhar por um aumento em mais-valia, por uma redução na participação do trabalho no produto, por uma luta constante e mesquinha com o proletariado, que defende sua existência e não pode deixar de protestar contra a óbvia usurpação de seu bem-estar. Essa luta é inevitavelmente o principal fator educacional atuando na massa operária e faz isso, em um certo nível de desenvolvimento, uma das principais forças minando esse sistema. Tornando-se mais aguda, profunda e mais geral, essa luta assume o caráter de uma luta de classe com a correspondente consciência de classe do proletariado, que agora é experimentado em todos os países capitalistas.  O capital não vai se render imediatamente, não vai se render até o último momento: derrotado em todos os aspectos, ele tenta se recuperar de novo e começar a luta com força renovada. Nessa luta, os interesses nus do capital emergem com mais ousadia: em um determinado nível de desenvolvimento a luta não pode mais ser conduzida sob a bandeira de ideias extravagantes, o capital descarta sua máscara e, descaradamente, anuncia que está lutando contra reivindicações em seu bolso; nesse nível, o capital vai estar travando uma luta não pela predominância, mas simplesmente para a existência. Ele agarra as formas políticas do sistema capitalista, assim como um homem se afogando se agarra a uma palha. Apenas o poder do estado está ainda em posição de lutar contra a massa operária, e, enquanto o poder político permanecer em mãos da burguesia, é possível afirmar categoricamente que não pode haver grandes melhorias na posição dos operários. Portanto, por mais amplo que seja o movimento operário, seu sucesso não será assegurado até que a classe operária esteja firmemente no terreno da luta política. Conquistar o poder político é a principal tarefa da luta do proletariado. 

Mas a classe operária só pode ser confrontada com esta tarefa quando a luta econômica lhe demonstrar a clara impossibilidade de conseguir uma melhoria de sua sorte nas atuais circunstâncias políticas. Só quando as aspirações do proletariado se chocam de frente com as formas políticas atuais, só quando a torrente do movimento operário encontra força política, é que ocorre o momento de transição da luta de classes para a fase da luta conscientemente política. Como sociais-democratas, propomos-nos a tarefa de conduzir o proletariado à consciência da necessidade da liberdade política como condição preliminar para a possibilidade de seu amplo desenvolvimento.

Mas como isso pode ser alcançado?

A ideia de liberdade política não é de jeito nenhuma simples e óbvia, especialmente em um país politicamente atrasado; a classe operária não pode ser inspirada com essa ideia enquanto a classe permaneça sufocada na atmosfera política presente e enquanto a satisfação das demandas que considera vitais for impossível dentro dos limites das condições políticas existentes. Assim como para o reconhecimento da oposição de interesses, a emergência dessa posição não é suficiente em si mesma, mas uma luta constante é necessária, então, para o reconhecimento da falta de direitos políticos, o exato fato dessa falta de direitos é em si mesma inadequada, até que entre em conflitos com os esforços da massa operária para melhorar essa situação. Nós vemos a melhor evidência desse fato na história da Inglaterra, onde, graças a prosperidade industrial, era até certo período necessário para lutar unicamente para tais melhorias, como era possível alcançar nas condições políticas existentes por meio de uma luta puramente econômica com capitalistas, que não recorreram a ajuda da força organizada do Estado. À primeira vista, os resultados foram surpreendentes. Na Inglaterra existe a produção capitalista mais desenvolvida, o movimento operário mais desenvolvido, mas o personagem político do movimento está muito insignificantemente desenvolvido e a maioria tem até agora se afastado da luta política ativa. O proletariado tem apenas recentemente começado a adquirir uma inclinação social democrata, enquanto a classe operária, através do próprio curso da luta, chega no reconhecimento da necessidade de uma reforma que não pode ser realizada por qualquer meio diferente de uma influência direta da máquina do Estado. Mas se nós tomarmos Áustria, onde o movimento operário é muito jovem, lá nós encontramos um crescimento surpreendentemente rápido de elementos políticos no movimento proletário, causado por um quadro político mais estreito dentro de cujos limites a luta original do proletariado teve que ser conduzida. Ou, por exemplo, Irlanda. A luta de pequenos fazendeiros, divididos pelo capital, há um longo tempo tem um caráter político, porque a luta econômica pela manutenção do nível de prosperidade deles trouxe a população irlandesa em um conflito agudo com a força organizada do Estado inglês. Dos exemplos acima mencionados, decorre que é impensável esperar um movimento de classe com um programa político onde a luta puramente econômica não seja conduzida em uma escala suficientemente grande. Portanto, é utópico supor que os operários russos, em sua massa geral, podem travar uma luta política, a menos que eles esclareçam com suficiente convicção a necessidade disso em seus próprios interesses. Dos exemplos mencionados acima decorre que é impensável esperar um movimento de classe com um programa político onde a luta puramente econômica não é conduzida em uma escala suficientemente grande. É portanto utópico supor que os operários russos, em geral massa, podem travar uma luta política a menos que eles esclareçam com convicção suficiente da necessidade para isso nos interesses deles. A massa popular é atraída para a luta não por raciocínio, mas por lógica objetiva das coisas, pelo próprio curso de eventos que os levam à luta. O papel do partido, tendo assumido a formação política e a organização do povo, limita-se a este respeito a determinar corretamente o momento em que a luta amadurece para a transição para a luta política e para a preparação da própria massa dos elementos que irão garantir que essa transição seja realizada com o mínimo de perda de recursos. Como, por exemplo, pode o proletariado reconhecer a necessidade de liberdade de reunião? A massa não chega a demanda como se isso fosse puramente um caminho lógico. A liberdade de reunião deve ser reconhecida como um meio de luta para o próprio interesse do proletariado e assim esses interesses devem ser reconhecidos; e a prática deveria demonstrar diante dos olhos deles a conexão entre os interesses de operários e liberdade de reunião. Essa prática se revela na luta pelos próprios interesses, luta na qual é necessário enfrentar o tipo de questões gerais sobre as quais seus pensamentos pareciam, até mesmo para eles, absurdos. Resta ao pensamento crítico dirigir a massa para as conclusões que resultam da formulação pela própria vida das questões que são vitais para ela, e para formular os resultados que fluem da lógica das coisas, da própria lógica da luta – em outras palavras, produzir um programa.

Mas como explicar, nesse caso, o movimento proletário ao fim do último século na França e na primeira metade no século atual em quase toda a Europa?

Aquele era o tempo da sujeição política da burguesia que encontrou obstáculos em seu desenvolvimento que as formas políticas de absolutismo ou da aristocracia colocou em seu caminho. A burguesia, naquele momento já materialmente forte, faltava em força física. Na verdade, os operários – por exemplo, as aprendizagens e a fábrica de operários – também sofrem das mesmas condições políticas. O descontentamento prevalecia entre a massa: era encorajado pela luta política, mas essa luta ocorria enquanto velhas formas de produção estavam sendo substituídas por novas e todo significado do novo não era suficientemente claro mesmo para a parte instruída da sociedade, e menos ainda para as massas populares atrasadas.  Nessas condições a luta não poderia dar ao proletariado uma consciência clara da oposição fatal entre seus interesses e os interesses de todas as outras classes ou, ainda mais, do fato que as causas fundamentais dos desafortunados da classe operária se ligam às fundações da ordem econômica da sociedade contemporânea. Enquanto isso, a considerável repressão da burguesia provocou nela o desejo de lutar pela emancipação, acompanhado por um entusiasmo idealista e um florescimento de talentos políticos em seu seio que esta classe nunca alcançou antes ou depois. Massas inteiras de oradores, políticos, escritores e publicistas emergiram de suas fileiras, inspiradas com ideias de liberdade e igualdade que, na consciência dos próprios propagandistas, tinham pouca relação com os interesses materiais da burguesia. No entanto, foram seus filhos, alimentados de insatisfação política e oposição, que, reconhecidamente, ultrapassaram os limites dentro dos quais o burguês maciço se permitia resmungar e, não raro, se encontravam em conflito aberto com os representantes da moderação e do escrúpulo do setor financeiro. e liberalismo industrial, mas que trabalhavam apenas para o benefício da burguesia. Esses mesmos militantes, movendo-se entre o povo com todo o ardor de quem desconhece as raízes materiais de seu idealismo, encontraram solo fértil na massa, politicamente imatura e em estado de turbulência. Não foi difícil convencer o povo de que a causa de todos os seus infortúnios residia nas restrições políticas e era ainda mais fácil fazê-lo quando a classe que o rodeava cantava em uníssono com os agitadores revolucionários, embaixo na verdade uma oitava baixo. Essa combinação poderosa confirmou nas mentes dos operários a verdade e a significação do que os oradores estavam dizendo nos folhetos e nas reuniões. Em adição, a mesma combinação poderosa confirmou nas mentes a ideia de uma conexão entre todos os interesses deles e os interesses de empreendedores. Vendo no doo seu defensor e patrão, ele se entregou completamente sem suspeitar que eles teriam apenas um caminho curto para seguirem juntos, que os caminhos divergiram em direções opostas. Assim a burguesia se tornou a líder da classe operária que, sob sua direção, não destruiu um único reduto do absolutismo ‘abençoado’. A classe operária foi para uma batalha, a burguesia produziu o programa e depois da vitória estabeleceu as novas bases de ordem, levando para si a parte do leão da pilhagem, culminando no poder político. No entanto, mesmo aquelas migalhas de vitória que caíram sobre o proletariado depois da vitória tiveram sua utilidade. Ainda mais útil para ele foi a educação política que adquiriu nesta luta. Mas esses atributos positivos também trazem os negativos em sua esteira. Até o presente, o operário viu no burguês de língua de mel seu governante e representante natural nos assuntos políticos. Auxiliando a educação política da classe operária, treinando-a para a luta de classes, esse período histórico ao mesmo tempo facilitou o enfraquecimento da autoconsciência política como uma classe separada. A história dessa época é importante para nós, como uma lição e como valor material para nossa própria prática e para as bases teóricas do movimento. Nós deveríamos concluir que apenas a massa pode vencer liberdade política. E, se esse é o caso, então a luta pela emancipação do proletariado não deve ser adiada até que a burguesia conquiste liberdade política. Se nossa burguesia conquista isso, ou se existem conflitos organizados entre governos e capital no futuro próximo, essa questão é sem dúvidas importante. Mas qualquer seja o caminho que essa questão seja resolvida não deveria alterar a direção da nossa atividade. Em qualquer eventualidade, é mais importante para nós que a classe operária esteja consciente, que compreenda seus interesses de não se tornar um apêndice da burguesia o último quer usar a força da massa operária como uma proteção que ela não só descartará posteriormente como desnecessária, mas também tentará destruir, para que não possa agir contra os próprios vencedores. Se nossa burguesia realmente não sabe como se tornar revolucionária, então não devemos dar a ela a oportunidade de aparecer como o mestre e líder de nosso proletariado, pois uma educação recebida da burguesia será recompensada a um preço muito caro pela perda de autoconsciência de classe. Se a própria burguesia também avança na arena de luta política então isso também é sem dúvida um bônus. 

O operário vai encontrar um companheiro de viagem ao longo do caminho, mas apenas um companheiro de viagem; do contrário, ele percorrerá esta parte na estrada diante de si sozinho, assim como ele também vai marchar todo o resto da estrada para completar a emancipação. E quão insignificante é essa primeira parte da estrada comparada com toda a estrada que se estende diante dele!

II

Na visão de cima, a tarefa com a qual nos defrontamos é clara: nós devemos nos esforçar para desenvolver autoconsciência política junto da massa de operários, para interessá-los na liberdade política. Mas autoconsciência política não significa apenas uma mudança no atual sistema político, mas também uma mudança em favor da classe operária. Consequentemente, o reconhecimento da oposição de interesses deve preceder autoconsciência de classe política. A oposição de interesses será reconhecida quando essa oposição se fizer aparente na vida do proletariado. Deve se fazer sentida em cada passo, ser constantemente repetida para o operário e se fazer sentida em cada detalhe. Mas é suficiente apenas sentir essa oposição a si mesmo, promover os próprios interesses em primeiro lugar e mantê-los constantemente em mente? A vida frequentemente obscurece simples e claros relacionamentos e não raramente parece possível de explicar o antagonismo entre a posição do proprietário e de operários puramente por circunstâncias naturais, que apenas confunde o operário. Por exemplo, nada é mais fácil do que confundir o operário e provar-lhe que a redução da jornada de trabalho é impossível. Até mesmo o estado deprimente do comércio no ramo particular da indústria é citado como evidência; a impossibilidade de encurtar o dia de trabalho por causa da competição com outros proprietários, pequenos lucros, a batalha com lojas maiores, e por aí vai, são citados. Esses são precisamente os argumentos, mesmo que fossem incorretos ou corretos apenas para um caso particular, que parecem bastante conclusivos ao operário que tem um entendimento limitado. Obviamente, sentir e entender a justiça das demandas deles, e promovê-los constante e persistentemente, estão longe de ser a mesma coisa. Mas para garantir que truques e enganos de vários tipos não desviem os operários de suas justas demandas, essas demandas devem ser promovidas constantemente, e não apenas em questões importantes, mas também – isto é particularmente importante como trabalho preparatório – em questões que parecem muito insignificantes.

No que se refere a demandas mesquinhas, o proprietário não confundirá os operários dessa maneira, porque a possibilidade de satisfazer demandas mesquinhas é óbvia para todos. Depende apenas do proprietário particular e o não cumprimento de uma demanda é facilmente explicado aos operários simplesmente como a falta de vontade do próprio proprietário, e dessa forma a oposição de seus interesses aos dos proprietários fica parcialmente clara. Nesse sentido, demandas mesquinhas podem ser mais facilmente atendidas com sucesso sem persistência particular na luta por elas, e isso traz consigo a fé em sua própria força, ensina aos operários os conceitos práticos de luta, prepara e promove indivíduos que eram até agora perdida na massa e dá a outros operários um exemplo de como lutar com sucesso com os proprietários. Mesmo na luta por demandas mesquinhas, os operários devem se unir quer queira quer não, convencendo-se na prática da necessidade e da possibilidade da unidade. Essa prática é muito mais importante na educação da massa, e mais convincente, do que livros sobre a mesma coisa. Na luta, as relações entre os lados opostos tornam-se agudas e o dono aparece em sua verdadeira aparência; só então ele tira sua máscara de benfeitor paterno e revela seus pensamentos e aspirações genuínas. Nesta luta o operário pode distinguir claramente seus amigos de seus inimigos, pode observar a solidariedade de todos os proprietários, de toda a burguesia em geral – a grande e a pequena burguesia – contra ele, o operário. Com base no despertar que a luta produziu, o operário está mais inclinado a aceitar as ideias que antes lhe pareciam absurdas.

Essa luta por demandas mesquinhas, provocada em particular pela exploração por um ou vários proprietários, é limitada à arena de uma ou algumas oficinas ou fábricas. A luta, que na maioria dos casos se limita a uma luta apenas com o explorador mais imediato, que não é apoiado pela administração, deve servir de escola primária para o proletariado russo, que ainda não foi atraído para a luta de classes ; na luta será educado e fortalecido e dela sairá preparado para a luta pelas demandas mais importantes, mesmo sem a unidade dos operários de várias fábricas ou de todo o comércio.

A primeira fase da luta por demandas mesquinhas, para as quais o operário é impelido por um cálculo de fácil apreensão – a exploração pelo dono é fácil de explicar – exige dos operários um certo grau de energia e unanimidade. Na segunda fase, quando é necessário fazer causa comum contra toda a classe burguesa, à qual o governo se apressará em ajudar, será necessário um grau muito maior de resistência, solidariedade e coragem. Além disso, um certo nível de consciência também será exigido, a capacidade de vincular seus próprios interesses aos de outros operários do mesmo ramo de produção, às vezes até de outro, mas tal consciência só pode ser desenvolvida quando o operário chega, através sua própria experiência, à conclusão de que o sucesso em uma luta particular pelos interesses dos operários em fábricas separadas não é viável. Essa mesma luta com proprietários separados desenvolverá na classe operária um grau de estabilidade e resistência, de unidade, um senso de independência e autoconfiança de classe, de que será preciso quando se deparar com a inevitabilidade da luta de classes no significado adequado da palavra. Ao entrar nesta fase, o movimento operário começará aos poucos a adquirir uma tonalidade política. Na verdade, à medida que os operários avançam uma determinada demanda por uma mudança significativa nos métodos existentes em uma fábrica específica ou em todo um ramo da indústria, eles se unem em uma luta em que a atitude em relação a eles não é apenas de um, não apenas de alguns proprietários, mas de todas as classes superiores e do governo se tornará claro para eles. Conscientes da total justiça de sua demanda, os operários, a princípio, comportam-se de maneira pacífica e comedida, confiantes de que todos devem estar do seu lado, que todos devem simpatizar com eles. Afinal, tudo isso é tão simples, suas exigências são tão claras, a opressão é tão injusta! Eles enviam uma delegação ao inspetor de fábrica. Ele certamente os ajudará, afinal ele é seu defensor, conhece todas as leis, e as leis certamente falam a seu favor … O inspetor apenas derrama um balde de água fria sobre eles … Não há nada sobre isso nas leis; o dono da fábrica é totalmente legal, não posso fazer nada … A porta se fecha diante do meu nariz … Como é que as leis não intercederam por nós! Não pode ser que nosso pequeno pai não nos tenha defendido! O inspetor foi subornado pelo dono da fábrica, ele está mentindo, mentindo insolentemente! … Os operários tentam outros caminhos: em todos os lugares encontram recusa, às vezes acompanhada de uma ameaça que logo assume uma forma real – as tropas são enviadas para ajudar os proprietários. Os operários recebem sua primeira lição de ciência política, que diz que o direito está do lado dos fortes, que contra a força organizada do capital deve surgir uma força de trabalho organizada de forma semelhante. Ampliando à medida que se desenvolvem, envolvendo áreas inteiras de produção em vez de fábricas individuais, a cada passo o movimento entra em conflito cada vez mais com o poder do Estado, as lições de sabedoria política tornam-se cada vez mais frequentes, e em cada ocasião sua poderosa moral é impressa cada vez mais profundamente na mente dos operários, a autoconsciência de classe é formada, a compreensão de que tudo o que o povo almeja só pode ser alcançado pelo próprio povo. O terreno está preparado para a agitação política. Essa agitação agora encontra uma classe, organizada pela própria vida, com um egoísmo de classe fortemente desenvolvido, com uma consciência da comunidade de interesses de todos os operários e sua oposição aos interesses de todos os outros. Então, a alteração do sistema político é apenas uma questão de tempo. Uma faísca – e o material combustível acumulado produzirá uma explosão.

Assim, a tarefa dos sociais-democratas é conduzir uma agitação constante entre os operários da fábrica com base nas necessidades e demandas mesquinhas existentes. A luta suscitada por tal agitação treinará os operários para defender seus próprios interesses, aumentará sua coragem, dará-lhes confiança em sua força, uma consciência da necessidade de unidade e, finalmente, colocará diante deles as questões mais importantes que exigem soluções. Tendo sido preparada desta forma para a luta mais séria, a classe operária procede à resolução dessas questões vitais, e a agitação com base nessas questões deve ter como objetivo a formação da autoconsciência de classe. A luta de classes nesta forma mais consciente estabelece a base para a agitação política, cujo objetivo será alterar as condições políticas existentes em favor da classe operária. O programa subsequente dos sociais-democratas é evidente.

III

Como resultado do fato de que a social-democracia só pode se tornar o verdadeiro partido do povo quando baseia seu programa de atividade nas necessidades que realmente são sentidas pela classe operária, e do fato de que para atingir esse objetivo – a organização da classe operária – deve começar com agitação com base nas demandas mais vitais, as menores que são mais claras para a classe operária e mais facilmente alcançáveis, chegamos a uma nova formulação da questão de que tipo de indivíduos devemos tentar promover entre os operários para a direção do movimento. Para fazer avançar as demandas menores que poderiam unir os operários na luta, devemos entender que tipo de demanda exercerá mais facilmente uma influência positiva sobre os operários em determinadas condições. Devemos escolher o momento certo para começar a luta, devemos saber quais os métodos de luta mais adequados às condições particulares, lugar e tempo. Informações desse tipo requerem contatos constantes com a massa de operários por parte do agitador, requerem que ele se interesse constantemente por um determinado ramo da indústria e acompanhe seu progresso. Há muitas pressões em cada fábrica e muitas ninharias podem interessar ao operário. Determinar a queixa mais agudamente sentida na vida dos operários, determinar o momento em que uma queixa particular deve ser apresentada, saber de antemão todas as ramificações possíveis – esta é a verdadeira tarefa do agitador ativo. Conhecimento deste tipo pode ser dado apenas pela vida: a teoria pode e deve apenas iluminar para ele. Mergulhar constantemente na massa, ouvir, escolher o ponto apropriado, tomar o pulso da multidão – é isso que o agitador deve se esforçar. O conhecimento das condições de vida, o conhecimento dos sentimentos da massa, em geral, lhe dará sua influência sobre a massa; isto o capacitará a encontrar o seu caminho sejam quais forem as circunstâncias, eles o promoverão na multidão e o farão seu líder natural. Claramente, as visões social-democratas do agitador determinarão qual caminho ele considera que deve conduzir a multidão sem abandonar suas convicções. Ele é obrigado a se esforçar com todas as suas forças para explicar às massas as vantagens e desvantagens de cada umas medidas propostas, para preservá-la de quaisquer erros que possam prejudicar o desenvolvimento de sua autoconsciência. Além disso, ele deve sempre dar um passo além do que a massa, ele deve lançar luz sobre sua luta, explicando seu significado do ponto de vista mais geral da oposição de interesses e, assim fazendo, deve alargar o horizonte das massas.

Mas, ao mesmo tempo, o próprio agitador não deve perder de vista o objetivo final, ele deve estar teoricamente preparado para que, sejam quais forem os infortúnios que ocorram, a conexão entre sua atividade presente e o objetivo final não se perca de vista. Para isso, porém, a preparação teórica por si só não é suficiente. Este último deve ser constantemente reforçado pelo trabalho prático. É somente por essa verificação constante, somente por adaptação constante à tarefa conhecida e aprendida na teoria, que o agitador pode dizer que entendeu e dominou a teoria. Por sua vez, a atividade prática revelará quais questões devem ser mais profundamente fundamentadas na teoria e, por uma extensão semelhante, o homem saberá como certificar-se do fundamento da própria teoria e de sua aplicação a condições particulares.

Por isso não nos identificamos com nenhum dos extremos, nem perdendo contato com a base prática e apenas estudando, nem agitando entre a massa, sem ao mesmo tempo nos preocuparmos com a teoria. Só a atividade paralela, a complementação de uma pela outra, proporciona uma preparação real e produz convicções sólidas. Que tipo de personagem faz e fizeram prevalecer os conceitos de propaganda na maioria dos círculos social-democratas? Indivíduos criados com base na teoria elaboraram por si próprios convicções teóricas correspondentes que tentaram transmitir a outros. Mas uma visão de mundo total, mesmo a visão de mundo do socialismo científico, não pode de forma alguma ser apreendida por todos, e é apenas em um certo estágio do desenvolvimento industrial que a propaganda do socialismo científico encontra uma massa de discípulos e, neste caso, a massa é preparada por uma luta longa e persistente. Por isso os operários mais aptos que se agruparam nos círculos foram selecionados e, aos poucos, as visões socialdemocratas foram sendo transmitidas a eles (na medida em que foram apreendidas pelos próprios dirigentes) e então essa matéria-prima foi enviada para um intelectual por seus retoques finais.

Qual foi o resultado desse tipo de propaganda? Os melhores e mais capazes homens receberam evidências teóricas que estão apenas superficialmente conectadas com a vida real, com as condições em que essas pessoas vivem. O desejo do operário por conhecimento, por uma fuga de sua escuridão, foi explorado a fim de acostumá-lo às conclusões e generalizações do socialismo científico. Este último foi tomado como algo obrigatório, imutável e idêntico para todos. É por isso que a maioria dos operários propagandeados, apesar de todo o seu entusiasmo pelo socialismo científico, carregava todos os traços característicos dos socialistas utópicos em seu tempo – todos os traços exceto um: os utópicos estavam convencidos do poder onipotente da pregação do novo gospel e acreditavam que a conquista da massa popular dependia apenas de seus próprios esforços, enquanto nossos utópicos social-democratas sabem perfeitamente bem que a condição retrógrada da indústria russa impõe limites estreitos a qualquer movimento socialista, e essa convicção os priva de qualquer energia na tarefa de propaganda e os obriga a limitar sua atividade a um círculo estreito de indivíduos mais avançados. Nossos operários propagandeados conhecem e entendem as condições de atividade da social-democracia ocidental muito melhor do que as condições de sua própria atividade.

O socialismo científico apareceu no Ocidente como a expressão teórica do movimento operário; conosco é transformado em teoria abstrata, não querendo descer das alturas transcendentais da generalização científica.

Além disso, nesta formulação o socialismo degenera em uma seita e o sistema de propaganda que estava sendo praticado teve outras consequências mais prejudiciais. Por um lado, com este sistema de propaganda, a massa ficou completamente de lado, sendo considerada como material a ser explorado e aproveitado tanto quanto possível. Essa exploração enfraqueceu fatalmente as forças intelectuais da massa; os melhores elementos foram retirados dele, e foi privado daquelas pessoas que, embora sem consciência, tinham, por sua superioridade mental e moral, servido antes e ainda poderiam ter servido como líderes e como a primeira linha de frente lutadores de linha em sua luta puramente espontânea pela existência. Por outro lado, esses melhores elementos do proletariado formaram um grupo especial de pessoas com todos os traços que caracterizam nossa intelectualidade revolucionária, condenada a um círculo de vida e atividade perpétua, com os resultados que decorrem inevitavelmente disso. Convencidos de que uma maior promoção de indivíduos da massa se tornará ainda mais difícil (e esse momento certamente deve chegar), os intelectuais operários ficam perplexos, refletem sobre as razões das dificuldades e naturalmente se inclinam ou ao pensamento que o inadequado nível do seu próprio desenvolvimento é a razão do fracasso da sua atividade, ou da convicção de que no nosso país as condições ainda não estão maduras para um movimento operário. No primeiro caso, eles concluem que é necessário estudar e estudar e depois ir e transmitir seus pontos de vista à massa; no segundo caso, se não acabam na desilusão total, com uma reconciliação com a realidade, eles se tornam ainda mais irrevogavelmente bloqueados em seus círculos preocupados com o auto-aperfeiçoamento até o momento em que, por conta própria e sem sua ajuda , a melhoria iminente no nível cultural da massa torna-a capaz de compreender seu ensino. Em ambos os casos, esses resultados da propaganda são um obstáculo indubitável à tarefa de elevar a autoconsciência de classe do proletariado russo. Quanto mais os operários socialistas melhoram em sua atitude mental e moral, quanto mais se distanciam da massa, mais distantes se tornam da realidade e no momento decisivo, quando algum evento ou outro pode impulsionar a massa operária para o movimento, ela e os operários socialistas permanecerão alienados e até hostis uns aos outros. É difícil prever a que isso pode levar, mas a história da Europa mostra que, neste tipo de situação, quando as condições estão maduras para um movimento da massa operária e os verdadeiros representantes dos seus interesses se encontram divorciados dela, ela encontrará outros líderes para si mesma, não teóricos, mas homens práticos que a conduzirão em detrimento do desenvolvimento de sua classe. Para os sociais-democratas, esta perspectiva não pode deixar de parecer altamente perigosa. A propaganda entre os operários para recrutar novos adeptos individuais para o socialismo não é diferente da propaganda entre a intelectualidade com o mesmo propósito; no entanto, como demonstrado acima, esse tipo de propaganda tem um lado diretamente prejudicial – ela enfraquece a força intelectual da massa. Ao criar uma intelectualidade socialista operária, alienada da massa, prejudicamos a causa do desenvolvimento do proletariado, prejudicamos a nossa própria causa.

Diferentes resultados devem ser alcançados unindo propaganda com agitação, unindo teoria e prática. O uníssono permanente entre os indivíduos avançados e a massa, a unidade com base em questões vagamente compreendidas pela massa e tornadas claras a ela por um agitador experiente, fará dele seu líder natural. Ao mesmo tempo, todo sucesso alcançado por meio desse tipo de união dos indivíduos com a massa aumentará a força adormecida da massa, aumentará seu espírito, provocará nela novas demandas, que antes lhe pareciam estranhas; dessa forma, aumentará seu nível cultural e consequentemente o aproximará ainda mais do agitador. A luta constante o estimulará ao esforço de pensar: ademais a mesma luta promoverá da massa novos indivíduos que são capazes de se tornar objeto da mesma propaganda racional e que, sem ela, permaneceriam perdidos na massa. O último é especialmente verdadeiro: enquanto, quando a massa era passiva, as reservas de pessoas que poderiam ser transformadas em socialistas eram estreitamente definidas, quando o movimento está ativo, o próprio movimento irá constantemente reabastecer os lugares daqueles lutadores de linha de frente que deixaram as fileiras. A tarefa do agitador é tentar garantir que novos pensamentos sejam concebidos na mente do operário, que ele entenda as atitudes dos proprietários em relação a ele de uma forma mais clara. O despertar, o eterno descontentamento e a eterna luta pela melhoria da sua situação, ao lado de uma compreensão ampla das vitórias já alcançadas – é para isso que o agitador deve conduzir a massa.

Com a propaganda nos círculos, foi necessário fazer grandes sacrifícios para a obtenção de resultados insignificantes. Trabalhando em massa, diminui o número de sacrifícios feitos em comparação com os resultados alcançados e, quanto mais amplo e profundo o movimento se torna, mais difícil será enfrentá-lo, mais difícil será arrancar os elementos socialistas. O melhor exemplo é a Polônia: as greves ali estão começando a receber reconhecimento oficial e o governo decidiu não aplicar leis existentes aos participantes. Isso prova que um movimento aberto pode tornar ineficazes os obstáculos que a lei colocou em seu caminho. Mas para isso o movimento deve ter raízes no solo. Quem não promove por sua própria atividade o crescimento da consciência de classe e as demandas revolucionárias do proletariado não é um social-democrata.

No entanto, é possível ajudar um ou outro apenas preocupando-se diretamente em despertar a massa do movimento por motivos econômicos e cada passo nesta direção encurta o caminho restante e ao mesmo tempo facilita o progresso posterior do movimento, removendo um após o outro aqueles obstáculos que agora parecem irremovíveis e que atrapalham até o trabalho do círculo, que é essencialmente cultural, e que não pode realmente remover. Em vista de tudo isso, reconhecemos a necessidade de os círculos social-democratas de fazer a transição para o programa cujas características principais delineamos, ou deixem de pensar que sua atividade é mais útil para a causa do desenvolvimento do proletariado do que a atividade. , por exemplo, do Comitê de Alfabetização. A experiência adquirida nestes círculos e a evidência dos operários que foram propagandeados com sucesso por eles, tornarão possível começar a luta mais ou menos racionalmente sobre novos alicerces. Os intelectuais e os operários devem discutir constantemente quais demandas devem ser feitas em um dado momento em um determinado ramo de produção, e quais devem ser objeto de agitação, tomando como ponto de partida as necessidades mais vitais dos operários. Além disso, deve haver esclarecimento sobre os meios que melhor facilitariam o início da luta (agitação, greve, petições ao fiscal e assim por diante). A produção de literatura agitacional deveria então ser tarefa da intelectualidade, literatura adequada às condições de um determinado ramo de produção ou de um determinado centro industrial, literatura que falasse ao operário de suas necessidades e servisse de suplemento correspondente à agitação oral. Finalmente, os intelectuais devem se esforçar para transmitir às suas sessões de estudo com os operários um caráter mais prático, de modo que para o operário o conhecimento que recebeu nessas sessões sirva para alargar seus horizontes e não arrancá-lo de uma vez do solo firme para a esfera de posições científicas completamente abstratas. Literatura de propaganda que inclina na mesma direção deve ser criada.

Ainda temos de dizer algumas palavras sobre a espécie de limites dentro dos quais os sociais-democratas devem restringir a sua atividade. Há uma visão de que apenas os centros industriais mais avançados podem fornecer a base para a atividade agitacional. E, de fato, no artesanato e na indústria doméstica, os operários, que são descoordenados e dispersos, acham mais difícil se unir com base em interesses comuns conscientes e o real caráter comum desses interesses não pode ser facilmente reconhecido como a oposição de interesses entre empregador e operário. A ausência de uma diferenciação pronunciada entre a posição de mestre e operário contribui para isso. Além disso, é relativamente fácil para o operário tornar-se proprietário ou produtor independente; como resultado, o operário considera sua posição temporária e está disposto a fazer certos sacrifícios. Mas pode-se concluir disso que a luta é absolutamente impossível? De novo, não! A produção artesanal e doméstica (ou seja, em pequena escala) tem algumas vantagens na luta.

Os operários qualificados são culturalmente mais avançados do que os não qualificados, são mais escassos e não podem ser facilmente substituídos por outros; com uma boa perspectiva de abrir suas próprias oficinas, os operários perdem menos se se recusarem a trabalhar, e assim por diante. Finalmente, um grande número de pequenas oficinas em uma região torna mais fácil mudar de um chefe para outro. Consequentemente, se, por um lado, a produção em pequena escala impede o desenvolvimento da luta ativa, então, por outro, a mesma produção nos ajudará a travar a luta.

Se nos grandes centros a própria vida leva os operários à batalha com os capitalistas, e o papel do agitador é apenas mostrar o caminho, então na produção em pequena escala o agitador tem, em um grau muito maior, ainda que despertar os operários. Por outro lado, uma vez que o movimento tenha começado, ele tem alguma chance de sucesso. As pessoas vão perguntar, isso é necessário? Há uma visão de que teremos que esperar até que a produção em pequena escala tenha de fato se transformado em indústria em grande escala e então começar a agitação, mas até lá ficarmos satisfeitos com a propaganda dirigida à formação de operários individuais em socialistas. Mas, além da dúvida que existe sobre se devemos em geral nos esforçar para criar uma intelectualidade operária isolada da massa, há objeções de um tipo diferente que podem ser feitas contra a tática sugerida. O fato é que a pequena produção não se torna um ramo da indústria por um salto repentino: a transição se completa muito lentamente e entretanto não é nada fácil determinar se a dita pequena produção ou doméstica se transformou na indústria de manufatura ou não. No processo de transição, sobretudo os operários são os que mais sofrem devido ao seu despreparo. Os operários são gradualmente apanhados no torno de ferro da grande produção e é uma desgraça para eles que participem apenas passivamente deste processo. Sofrimentos terríveis, insegurança material, desemprego, redução constante dos rendimentos, quase degeneração – é o que acontece no dia-a-dia se os próprios operários não notam sua descida pela ladeira escorregadia da queda dos salários e do aumento da insegurança, se por sua seus próprios esforços não lutam pela conquista de melhores condições de vida. O infortúnio dos operários é que, em troca das vantagens da mão-de-obra qualificada, que perdem a cada passo, não adquiram outra arma – o reconhecimento de seus interesses, a compreensão da necessidade de se aderirem solidamente uns aos outros por um luta bem-sucedida. É verdade que a agitação em tais circunstâncias é muito mais difícil, devido ao avanço desta força terrível que está esmagando os operários, mas é por isso muito mais importante prevenir o sofrimento mais agudo e, assim, criar as chances de um mais luta bem-sucedida com as novas condições, uma vez que estas tenham sido estabelecidas. Consideramo-nos afortunados por viver em uma época em que a progressão do movimento é tão nítida que podemos prever suas etapas posteriores.

Estar ciente dessa progressão, e não usar o conhecimento, seria cometer um enorme erro histórico. Da mesma forma, a noção da viabilidade de um forte movimento operário em alguns centros está errada. Com a maior mobilidade dos operários, os operários provinciais, reduzidos à categoria de desempregados nas primeiras etapas do capitalismo, farão o papel de emigrantes de um país menos culto em relação aos operários organizados dos grandes centros. Assim, negligenciar os operários na produção em pequena escala é complicar a tarefa de organização e de luta nos grandes centros operários. Disto decorre que apenas a agitação generalizada pode dar frutos. No que diz respeito à massa, que ainda não foi unida pelo capital industrial, devemos nos empenhar para que o capitalismo, em sua conquista de um ramo de produção após o outro, não deixe apenas a ruína, mas que, seguindo imediatamente atrás de seus calcanhares, as fileiras do exército operário organizado se elevem para que, embora privados de suas habilidades e transformados em operários não qualificados, os proletários saibam como se opor à exploração com a força da organização, a força da autoconsciência de classe.

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