Lênin e os 25 anos de luta por um partido comunista

Por Karl Radek, via marxists.org, traduzido por Igor A. Torres Ribeiro

Por ocasião dos 25 anos do Partido Comunista da Rússia, em 22 de março de 1923.

Como todas as outras coisas na natureza, Lenin nasceu, se desenvolveu, cresceu. Quando Vladimir Ilyich me observou deslizando o olhar sobre uma coleção de seus artigos escritos no ano de 1903, que recentemente haviam sido publicados, um sorriso malicioso surgiu em seu rosto e ele comentou com uma risada: “É muito interessante ler que nós éramos um bando de estúpidos!” Entretanto, eu não tenho aqui a intenção de comparar o formato do crânio de Lenin nas idades de 10,20 ou 30, com o crânio do homem que presidiu sobre as sessões do Comitê Central do Partido ou dos Comissários do Conselho dos Povos. Aqui não está uma questão sobre Lenin como um líder, mas como um ser humano vivo. P.B. Axelrod, um dos pais do Menchevismo, que odeia Lenin do fundo de sua alma – o caso de Axelrod é um excelente exemplo de como o amor pode se transformar em ódio – relata em uma das denúncias, com a qual ele buscou me convencer da perniciosidade do Bolchevismo em geral e de Lenin em particular, como Lenin saiu do país pela primeira vez e como ele foi caminhar e batalhar com ele. “Eu senti naquela época,” disse Axelrod, “que aqui estava um homem que se tornaria o líder da Revolução Russa.” Ele não era apenas um Marxista instruído – haviam muitos desses – mas ele sabia o que ele “queria fazer e como isso devia ser feito. Havia um pouco do cheiro do solo russo nele.” Pavel Borisovitch Axelrod é um mau político, ele não tem o cheiro da terra. Ele é aquele que pensa em casa na sua própria sala de estudos, e toda a tragédia da vida dele consiste do fato de que, em um tempo quando não havia movimento operário na Rússia, ele pensou as linhas sobre as quais tal movimento operário deveria se desenvolver e quando ele se desenvolveu por linhas diferente, ele se ofendeu firmemente e, até hoje, ele continua a vociferar com raiva em direção à criança desobediente. Porém, as pessoas frequentemente observam nos outros aquilo que está faltando nelas mesmas e as palavras de Axelrod a respeito de Lenin capturam, com perspicácia insuperável, precisamente aquelas características que fazem de Lenin um líder.

É impossível ser um líder da classe trabalhadora sem saber toda a história da classe. Os líderes do movimento operário devem saber a história do movimento dos trabalhadores; sem esse conhecimento não pode haver líder, da mesma forma que, atualmente, não pode haver um grande general que possa ser vitorioso com o menor gasto de forças, a não ser que ele saiba da história da estratégia. A história da estratégia não é uma coleção de receitas de como se vencer uma guerra, pois uma situação, uma vez descrita, nunca se repete. Porém, a mente do General se torna experimentada em estratégia através de seu estudo específico; esse estudo o torna flexível na guerra, permite a ele observar os perigos e possibilidades que o general treinado empiricamente não consegue ver. A história do movimento dos trabalhadores não nos diz o que fazer, porém ela torna possível comparar nossa posição com situações que já foram experimentadas pela nossa classe, para que, em diversos momentos decisivos, nós sejamos capazes de ver o caminho claramente e reconhecer a perigo que se aproxima.

Porém, nós não podemos conhecer devidamente a história do movimento operário sem estar completamente familiarizados com a história do capitalismo, com seu mecanismo em todo seu fenômeno econômico e político. Lenin conhece a história do capitalismo assim como apenas alguns dos pupilos de Marx conhecem. Não é simplesmente o conhecimento da palavra escrita – nesse quesito o camarada Riazanov poderia dar a ele cinco pontos por onde começar, mas ele refletiu sobre a teoria de Marx como ninguém mais fez. Por exemplo, tomemos o pequeno panfleto que ele escreveu no momento de nosso conflito com o movimento sindicalista; nele ele chama Bukharin de um sindicalista, um eclético e um grande pecador em vários outros aspectos. Esse panfleto polêmico contém algumas linhas dedicadas à diferença entre dialética e ecletismos, linhas que não são citadas em nenhuma coleção de artigos sobre materialismo histórico, mas que dizem mais sobre ele do que capítulos inteiros de livros muito mais longos. Lenin apreendeu e refletiu independentemente a teoria do materialismo histórico de um modo que ninguém mais consegui fazer, pela razão de que ele o estudou com o mesmo objeto em vista pelo qual Marx foi influenciado ao criar a teoria.

Lenin entrou no movimento como a incorporação da Vontade pela Revolução e ele estudou o marxismo, a evolução do capitalismo e a evolução do socialismo, do ponto de vista de seus significados revolucionários. Plekanov também foi um revolucionista, mas ele não foi possuído pela Vontade pela Revolução e, a despeito de sua grande importância como um professor da Revolução Russa, ele somente pode ensinar sua álgebra e não sua aritmética. Aqui reside o ponto de transição de Lenin, o teórico, para Lenin, o político.

Lenin combinou marxismo com a estratégia geral da classe trabalhadora, porém, ao mesmo tempo, aplicou ele concretamente àquela tarefa estratégica envolvendo o destino da classe trabalhadora russa. Pode-se dizer que, na Academia do Estado-Maior do Exército, ele estudou não apenas Clausewitz, Moltke e seus semelhantes, mas ele estudou ao mesmo tempo, como ninguém na Rússia, o território da futura guerra do proletariado russo. Aqui reside o todo da genialidade de Lenin: na sua máxima intensidade de contato íntimo com seu campo de atividade.

Eu devo tomar alguma outra oportunidade de debater o porquê de uma mente tão grande como aquela de Rosa Luxemburgo não foi capaz de entender a precisão dos princípios de Lenin, na origem do Bolchevismo, eu apenas posso delinear o fato. Rosa Luxemburgo não apreendeu corretamente a diferença econômica e política entre as condições de luta do proletariado russo e daqueles do proletariado da Europa Ocidental. Portanto, ela se inclinou ao Menchevismo no ano de 1904. O Menchevismo, observado historicamente, foi a política da intelectualidade pequeno burguesa e daquelas camadas do proletariado mais proximamente relacionado à pequena burguesia. Observado metodologicamente. O Menchevismo foi uma tentativa de transferir a tática do movimento operário da Europa Ocidental para a Rússia. Se nós lermos um artigo de Axelrod ou Martov sobre a independência de desenvolvimento na classe trabalhadora, “que deve aprender a andar com as próprias pernas,” ele parece extremamente plausível e contundente para qualquer um que cresceu no movimento operário da Europa Ocidental. Eu me lembro muito bem que, quando eu me tornei familiar com as polêmicas social democratas russas, durante a primeira revolução, mas ainda não estava familiar com a realidade russa concreta, eu não conseguia compreender como alguém poderia negar tais verdades elementares. Nada faltava a esse plano magnífico exceto os pré-requisitos para a aplicação de suas táticas e hoje está historicamente provado que todos discursos dados pelos Mencheviques sobre a “independência do movimento operário”, na realidade, eram apenas discursos sobre a necessidade do leve movimento operário russo se subordinar à burguesia russa.

Hoje, é muito interessante ler a controvérsia sobre o famoso parágrafo primeiro do Estatuto do Partido, o parágrafo que levou à cisão de linhas do Partido Social Democrata em Bolcheviques e Mencheviques. Naquele momento, a demanda de Lenin, que apenas membros das organizações ilegais fossem contados como membros do partido, pareceu altamente sectária. Porém, qual era realmente o ponto em questão? Lenin buscou prevenir que as ideias confusas de certos intelectuais determinassem a política do partido do trabalho. Antes da primeira revolução, qualquer médico ou advogado descontente que acontecia de ter lido Marx se considerava como social democrata, apesar de que no fundo ele era apena um liberal. Mesmo quando eles entravam em uma organização ilegal, mesmo quando eles haviam rompido com seu modo de vida pequeno burguês, a história mostra que muitos intelectuais também permaneceram liberais no fundo de suas almas. Porém, a limitação do Partido a tais pessoas que estavam dispostas a encarar os perigos de pertencer à uma organização ilegal, tinha, indubitavelmente, a vantagem de diminuir o perigo da ascensão burguesa no partido do trabalho e permitia o raio revolucionário emanando da classe trabalhadora penetrar as organizações do partido, por mais que estivesse preenchido com elementos intelectuais. Porém, para ser capaz de apreender isso, para estar preparado até mesmo para rachar o Partido a respeito disso, era necessário estar ligado tão proximamente com as realidades russas quanto estava Lenin, em sua qualidade de Marxista russo e revolucionista russo. E isso não estava totalmente claro para muito bons Marxistas, nos anos de 1903 e 1904, isso se tornou claro o suficiente a partir do momento quando Axelrod começou a misturar a luta de classes do proletariado contra a burguesia russa com a famosa campanha agrária, isto é, com a aparição de trabalhadores em banquetes liberais com o propósito duplo de: conhecer a burguesia e de se tornar cheio de ódio contra a classe capitalista, que, como é bem sabido, nunca havia visto a classe trabalhadora exceto no banquete; além disso, os capitalistas deveriam assim ser educados na compreensão da necessidade de expandir os interesses nacionais gerais.

O modo de Lenin conhecer a realidade russa é outro ponto no qual ele difere de todos os outros que esticaram suas mãos em direção ao cetro da liderança sobre o proletariado russo. Ele não apenas conhece a realidade russa, ele também vê e sente ela. Em cada ponto de virada na história do Partido, e especialmente no momento quando nós tomamos o poder e o destino de 150 milhões de pessoas dependeu das decisões do Partido, eu sempre me surpreendi com o estoque de Lenin do que os Ingleses chamam de “senso comum”. Pode ser destacado que, quando nós estamos falando de um ser humano sobre quem nós estamos convencidos de que seu semelhante não irá aparecer por um século, elogiar o senso comum dele é apenas um cumprimento pobre, mas é justamente nisso que a grandeza dele como um político reside. Quando Lenin tem que decidir sobre uma questão importante, ele não pensa sobre categorias históricas abstratas, ele não pensa sobre aluguéis de terrenos, sobre valores de excedentes, absolutismo ou liberalismo, ele pensa sobre Sobakevitch, sobre Gessen, sobre Sydor da Província de Tver, sobre o trabalhador Putilov, sobre o policial nas ruas e ele pensa sobre o efeito da medida sobre o Mujique Sydor e sobre o trabalhador Onufria, como portadores da revolução.

E eu nunca esquecerei minha conversa com Ilyich antes da conclusão da paz de Brest-Litovsk. Cada argumento que nós trouxemos contra a conclusão do Brest-Litovsk ricochetearam nele como ervilhas em uma parede. Ele empregou o argumento mais simples: Uma guerra não pode ser conduzida por um partido de bons revolucionistas que, tendo agarrado a própria burguesia pelo pescoço, não é capaz de fechar uma barganha com a burguesia alemã. Os mujique devem continuar a guerra. “Mas você não vê que os mujique votaram contra a guerra?”, Lenin me perguntou. “Com licença, quando e como eles votaram contra ela?” “Eles votaram com os pés, eles estão fugindo do fronte”. E, para ele, aquilo resolvia o assunto. Que nós não seriamos capazes de entrar em acordo com o imperialismo alemão, isso Lenin sabia tão bem quanto todos os demais, mas quando ele falou em favor da pausa para repouso de Brest, ele não escondeu das massas por um único momento os sofrimentos que estavam fadados a se seguir. Porém, ela não era pior do que o esfacelamento imediato da Revolução Russa. Ela nos deu uma sombra de esperança, uma pausa para repousar, mesmo que apenas por alguns meses, e esse foi o momento decisivo. Era necessário que o mujique devesse tocar com suas mãos a terra que a revolução havia dado à ele; era necessário que ele fosse confrontado com o perigo de perder a sua terra, pois então ele defenderia ela.

Tomemos outro exemplo. Era no momento de nossa derrota na guerra polonesa, quando as negociações estavam acontecendo em Riga. Naquele momento eu viajei para fora, e, antes de partir, eu fiz uma visita à Ilyich, para conversar com ele sobre as diferenças de opinião que haviam se levantado entre nós em relação aos sindicatos. Assim como Lenin considerou o Mujique da Província de Riazan em sua visão mental quando decidiu pela paz de Brest, sabendo que esse Mujique era a personalidade decisiva no drama da guerra, da mesma forma ele se colocou na posição do trabalhador simples tão logo era uma questão da transição da guerra civil à reconstrução econômica, pois sem esse trabalhador simples nenhuma reconstrução econômica é possível. Como ele pôs a questão diante de si? As reuniões do Partidos discutiram o papel desempenhado pelos sindicatos na economia política; haviam controvérsias sobre sindicalismo e ecletismo. (sic!) Porém, o que Lenin viu era o trabalhador vitimizado, suportando sofrimentos inauditos e indescritíveis, e agora convocado para reconstruir a economia política. Que a reconstrução econômica era uma necessidade imperativa, que nós tínhamos que reunir todas as nossas forças e que nós tínhamos o direito de convocar a classe trabalhadora a tomar parte nesse trabalho, tudo isso aparecia incontestavelmente para ele, mas era uma questão de se nós devíamos começar com isso imediatamente, se devíamos retirar milhares de nossos melhores camaradas do exército, onde eles haviam se acostumado a comandar, e enviar eles de volta às fábricas de uma vez. Nada seria produzido ao perseguir tais táticas. “Eles devem descansar, eles estão muito cansados.” Esse foi o argumento decisivo de Lenin. Ele viu diante de si o trabalhador russo real, como ele era no inverno de 1921, e ele sentiu o que era possível e o que era impossível.

Marx, na introdução de sua Crítica da Economia Política, afirma que a história só se propões as tarefas que ela pode cumprir ‘Isso significa, em outras palavras, que somente aquele que apreende quais tarefas são capazes de se cumprir historicamente em um dado momento, e que não luta pelo desejado, mas pelo possível pode se tornar instrumento da história. A grandeza de Lenin reside no fato de que ele nunca se permite cegar por uma realidade quando ela está em processo de formação, por qualquer fórmula preconcebida, e que ele tem a coragem de jogar a fórmula de ontem ao mar tão logo ela perturba sua compreensão dessa realidade. Antes da nossa tomada do poder, nós emitimos, como revolucionários internacionalistas, o lema da paz dos povos contra a paz dos governos. E, repentinamente, nós nos encontramos na posição de um Governo dos Trabalhadores, cercado por povos que ainda não tinham tido sucesso em derrubar seus governos capitalistas. “Como nós podemos concluir uma paz com o governo Hohenzollern?” Foi uma pergunta colocada por muitos camaradas. Lenin respondeu maliciosamente: “Vocês são piores que galinhas. Uma galinha não consegue se decidir sobre cruzar um círculo desenhado ao redor dela com giz. Mas, pelo menos, ela consegue se justificar pela afirmação que esse círculo foi desenhado por uma mão estranha. Entretanto, nós desenhamos nossa fórmula com nossas próprias mão e agora vocês só comem da fórmula e não da realidade. Nossa fórmula de paz a ser concluída pelos povos, tinha por seu objetivo acordar as massas contra o exército e os governos capitalistas. Agora vocês querem para nós irmos à ruina, e deixar os governos capitalistas levem a vitória em nome de nossa fórmula revolucionária.”

A grandeza de Lenin reside em buscar objetivos que se erguem das realidades. Nessa realidade, ele vê um poderoso corcel, que irá carregar ele até seu objetivo, e ele se deixa a cargo dele. Porém, ele nunca se abandona aos seus sonhos. Isso não é tudo. O gênio dele contém outro traço: depois dele se propor um objetivo certo, ele busca pelos meios que levam aos seus objetivos por meio da realidade; ele não se contenta com fixar seus objetivos, ele pensa concretamente e completamente todo o necessário para se alcançar esse objetivo. Ele não apenas desenvolve um plano de campanha, mas toda a organização da campanha ao mesmo tempo. Nossos organizadores, que são somente organizadores, frequentemente riam de Lenin como um organizador. Qualquer um vendo como Ilyich trabalha em casa, em seu quarto ou no Conselho dos Povos, Comissários, pode pensar que é impossível encontrar um organizador pior. Ele não apenas não tem uma equipe de secretários para preparar seu material, mas, até agora, ele nem mesmo aprendeu a ditar para um estenógrafo e olha para a caneta com que ele escreve, de forma semelhante a que um Mujique do distrito Don olha para o primeiro carro motorizado que ele vê. Entretanto, mostre nos, em todo o partido, um único individuo capaz de realizar dentro de décadas esta ideia central sobre a reforma do nosso aparato burocrático, apesar dessa reforma ser inevitável se nós não quisermos que o Mujique, indignado contra a oficialidade, comece a rugir. Todos nós conhecemos nosso aparato burocrático, todos nós clamamos contra o estado escandaloso das coisas designadas pelo camarada Steklov (editor chefe do Izvestia), com toda a delicadeza de um órgão semioficial: “ligeiros defeitos no mecanismo Soviético”. Porém, qual dos nós líderes partidários se colocou a pergunta: A nova política econômica criou uma nova base para uma aliança entre o proletariado e o campesinato; como nós iremos prevenir que a burocracia destrua essa aliança? Mas o grande político do proletariado russo, impedido por sua doença de realizar sua rotina diária, pensou sobre a questão central da organização do estado e desenvolveu o plano de luta com décadas de avanço. Porém, esse é apenas o esboço preliminar, os detalhes são dependentes da confirmação pela experiência. Mas quanto mais atenção nós devotamos a esse esboço superficial, mais claramente nós vemos que na personalidade de Lenin o grande político e o grande organizador político estão combinados.

Como tudo isso acontece de estar combinado nele, somente Deus sabe. (O Camarada Stefanov e a Comissão para combater a religião, me desculpem gentilmente.) A história tem seu próprio aparato para destilar conhaque, e nenhuma Tcheka pode detectar ela. A burguesia Alemã não conseguiu unir a Alemanha e, em algum lugar, em uma pequena granja de terra, a história colocou uma de suas máquinas em ação, e com a ajuda de Deus ou do diabo, isto é, por trabalho molecular, ela criou Bismark, que então cumpriu a tarefa. Se nós lermos os primeiros relatórios dele, se seguirmos sua política passo a passo, nós somos obrigados a nos perguntar como foi possível para um senhor de terras possuir tal compreensão sobre toda a realidade Europeia.

O mesmo pensamento surge toda vez que nós pensamos sobre a história do Partido, a história da revolução, e Ilyich. Por 15 anos nós observamos enquanto esse homem estava lutando a respeito de cada vírgula nas resoluções, contra todo “ismo” inventado durante os últimos 25 anos, desde o khvostismo [“reboquismo”, “rabismo”] até o empiriocriticismo. (sic!) Para Lenin todos esses “ismos” sempre foram uma incorporação de algum inimigo real existente ou nas classes exteriores ou na classe trabalhadora, mas em todo caso na realidade. Esses “ismos” eram as antenas da realidade e ele absorveu toda essa realidade nele mesmo, estudou ela, pensou sobre ela, até que o milagre finalizado apareceu e o homem da clandestinidade provou ser o homem mais mundano da realidade russa. A história não oferece outro exemplo de tal transição de revolucionista subterrâneo a estadista. Essa combinação de características de líder teórico, político e organizador fez de Lenin o líder da Revolução Russa. E que esse líder deva ser o único líder universalmente reconhecido como líder, o toque humano foi necessário, a dualidade que fez de Lenin o amado herói da Revolução Russa.

Ele mesmo tenta nos convencer que o homem requer a verdade absoluta, o que é uma inverdade na formulação individualista de Ibsen. Para muitas pessoas a verdade é mortal; ela é mortal até mesmo para muitas classes. Se a burguesia apreendesse a verdade sobre ela mesma e fosse permeada com essa verdade, ela já teria sido derrotada, pois quem pode continuar a lutar quando a verdade da história diz a ele que ele não está apenas condenado à morte, mas que seu corpo será lançado no esgoto? A burguesia esta cega e muda para o seu destino. Porém, uma classe revolucionária precisa da verdade, pois a verdade é o conhecimento da realidade. E não é possível dominar a realidade sem conhecer ela. Nós formamos uma parte dessa realidade: a classe trabalhadora, o Partido Comunista. E é apenas se nós formos capazes de julgar nosso poder e nossa fraqueza que nó poderemos julgar as medidas a serem tomadas para assegurar a vitória final. Lenin diz ao proletariado a verdade, e apenas a verdade, não importa o quão deprimente ela seja. Quando os trabalhadores ouvem ele falando, eles sabem que não existe uma frase única em seu discurso. Ele ajuda a nos informar sobre a realidade. Em um momento eu estava vivendo em Davos com um trabalhador Bolchevique que estava morrendo de tuberculose pulmonar. Naquele momento, o direito de auto determinação das nacionalidades estava sendo debatido e nós, comunistas Poloneses, estávamos opostos à visão de Lenin. O camarada de quem eu falo, depois de ter lido minha tese contra Lenin, disse: “O que você escreveu é perfeitamente convincente para mim, mas toda vez que eu me opus a Ilyich, sempre aconteceu depois que eu estava errado.” É assim que os funcionários líderes do partido pensam, e esta é a razão para a autoridade de Lenin no Partido; mas os trabalhadores não pensam assim. Eles não se sentem ligados a Lenin porque ele esteve certo por um milhar de vezes, mas porque, se ele esteve errado uma vez, se um erro foi cometido sob sua liderança, ele admitiu abertamente: “Nós cometemos erros e, portanto, nós fomos derrotados aqui; esse erro deve ser resolvido de tal e tal maneira”. Muito perguntaram a ele o porquê dele falar tão abertamente sobre os erros cometidos. Eu não sei o porquê de Lenin fazer isso, mas os resultados dessa forma de agir podem ser vistos claramente. O trabalhador está esclarecido demais para acreditar mais em um salvador redentor. Quando Lenin fala de seus erros, ele não esconde nada, ele conduz o trabalhador no seu laboratório de pensamento, ele torna possível para o trabalhador tomar parte na formação da decisão final, e o trabalhador vê nele o líder que representa o laboratório deles, a incorporação da luta de classes deles. Uma grande classe, que em si precisa da verdade absoluta, ama com todo seu coração um líder que é ele próprio um ser humano amante da verdade, alguém que conta a verdade sobre si. De tal líder o trabalhador pode suportar qualquer verdade, até mesmo a mais difícil. Os seres humanos têm fé neles mesmos apenas quando eles não escondem nada, quando eles sabem tudo sobre eles mesmos, até mesmo as possibilidades mais desfavoráveis, e ainda assim sentem que eles podem dizer: Apesar de tudo… Lenin auxilia a classe trabalhadora a um conhecimento completo de todos os elementos decadentes e decompostos de sua própria existência, e ainda assim permite a ela dizer no final: Eu sou vossa Majestade o Proletariado, o futuro governante e criador da vida. Este é outro fator na grandeza de Lenin.

Nesse dia do 25° aniversário do Partido, que não apenas carrega a responsabilidade pelo destino de um sexto do globo, mas que é ao mesmo tempo a principal alavanca da vitória do proletariado, os comunistas russos, e todo revolucionista entre os proletariados de todos os países, estão cheios com o pensamento e o desejo de que esse Moisés, que liderou os escravos da terra da escravidão, possa passar conosco para a terra prometida.

Compartilhe:

Compartilhar no facebook
Compartilhar no twitter
Compartilhar no telegram
Compartilhar no whatsapp
Compartilhar no pocket

Deixe um comentário