Imperialismo Tardio: 50 anos depois do livro “A Era do Imperialismo”, de Harry Magdoff

Por John Bellamy Foster, via Monthly Review, traduzido por Konrado Leite.

Não deixe de ver também o livro Introdução ao Imperialismo Tardio.

O mais influente trabalho sobre o imperialismo continua sendo o clássico trabalho de V. I. Lênin de um século atrás, O Imperialismo: Fase Superior do Capitalismo (mais conhecido pelo título dado a ele após sua primeira publicação, O Imperialismo: Etapa Superior do Capitalismo).1 Lênin empregou o termo imperialismo moderno ou simplesmente imperialismo para se referir a era do capital concentrado, durante o qual o mundo inteiro estava sendo sendo retalhado pelos Estados líderes mundiais e suas corporações, distinguindo a etapa imperialista do colonialismo/imperialismo das etapas mercantilista e livremente competitiva do capitalismo que a precederam. “A política colonial e o imperialismo,” insistiu Lênin, “existiam já antes da fase mais recente do capitalismo e até antes do capitalismo.”2

A nova etapa imperialista, iniciada no primeiro quartil do século dezenove e se estendendo ao  século vinte, foi tratada como o produto de firmas capitalistas gigantes com poder monopolista, a forte ligação forjada entre essas corporações e os estados-nacionais nos quais elas surgiram, e a luta resultante pelo controle das populações e recursos do mundo—levando à competição intercapitalista e à guerra. “Se fosse necessário dar uma definição, a mais breve possível do imperialismo [como uma “fase específica”],” escreveu Lênin, “dever-se-ia dizer que o imperialismo é a fase monopolista do capitalismo.”3

A análise geral de Lênin do imperialismo pertencia a um grupo de teorias amplamente complementares da tradição marxiana que incluíam os escritos de Rudolf Hilferding O Capital Financeiro (1910), A Acumulação de Capital (1913) de Rosa Luxemburgo, e O Imperialismo e a Economia Mundial (1915) de Nikolai Bukharin.4 Ainda assim, a análise do próprio Lênin foi incomparável em sua habilidade de capturar as condições dominantes do mundo até a Segunda Guerra Mundial, incluindo por explicar as próprias guerras mundiais. Um ponto forte de sua análise era seu caráter concreto e histórico, divorciado de fórmulas teóricas rígidas. Ela abrangeu fenômenos tão variados como o crescimento do monopólio e do capital financeiro, “a divisão do mundo entre os trustes internacionais”, a exportação de capitais, a corrida por energia e matérias primas, a luta de classes, a rivalidade geopolítica na luta por território económico e esferas de influência, a ascensão de uma aristocracia operária no centro capitalista, e a competição pela hegemonia global e regional.5

Enquanto enfatiza a competição intercapitalista, Lênin também aponta à hierarquia dos estados-nacionais, que serviu para dividir as potências centrais das nações mais pobres da periferia que foram capturadas em suas órbitas imperiais. Sua análise foi além do colonialismo para discutir o neocolonialismo em relação à América Latina. Nos anos 1920, alerta às lutas revolucionárias que ocorriam no México, Turquia, Pérsia, China e Índia, Lênin foi pioneiro ao estender sua análise à consideração de todas as “colônias e países oprimidos pelo imperialismo” e a todos os “países dependentes”, suscitando revoluções na periferia contra o “imperialismo internacional.”6

Entretanto, a história na concepção marxiana é uma dialética da continuidade e da mudança. Nos anos 1960 a análise de Lênin, apesar de sua abrangência, precisava de atualizações. Na era pós-Segunda-Guerra-Mundial, os Estados Unidos emergia com hegemonia quase absoluta sobre a economia mundial capitalista. Ao mesmo tempo, o mundo viu a maior onda revolucionária na história associada com a ruptura com o colonialismo, a ascensão do neocolonialismo, o surgimento de uma esfera rival da sociedade pós-revolucionária, incluindo estados com aspirações socialistas.7 Nesta atmosfera mudada, correspondente à Guerra Fria, os Estados Unidos e seus aliados apresentaram uma nova ideologia do crescimento econômico, desenvolvimento, ajuda [internacional], e modernização dentro do arcabouço ideológico capitalista. Um exército de intelectuais liberais e social-democratas, incluindo figuras como Mark Blaug, Benjamin J. Cohen, Robert W. Tucker, e Barrington Moore Jr., foram recrutados nos anos 1960 e ‘70 para negar a existência do imperialismo econômico, se não do imperialismo de forma geral, visando sua análise em várias figuras da esquerda e nos Estados Unidos em particular, incluindo Paul Baran, Paul Sweezy, William Appleman Williams, e Harry Magdoff.8

Bem no centro do intenso debate sobre o Imperialismo Americano nos anos 1960 e ‘70 no contexto da Guerra do Vietnã estava o livro de Magdoff A Era Do Imperialismo: A Economia Da Política Externa Dos Estados Unidos (1969), escrito pouco mais de cinquenta anos depois do grande texto de Lênin. Ao lado da coletânea de Magdoff de ensaios históricos e teóricos do final dos anos 1960 e ‘70—Imperialismo: da Era Colonial ao Presente (1978)—A Era do Imperialismo se destaca como a análise econômica, histórica e teórica mais integrada do imperialismo Americano em seu auge, a assim chamada era de ouro do capitalismo monopolista.9

Magdoff, mais que qualquer outra figura da época, modelou a dialética da continuidade e da mudança na análise Marxiana do imperialismo, ligando seu trabalho à análise anterior de Lênin. Como outros grandes teóricos marxianos do imperialismo de meados do século vinte ao presente, como Baran, Sweezy, e Samir Amin, ele continuou a enfatizar a concentração e centralização do capital, aliados à ascensão de corporações monopolistas, como uma chave para se compreender o imperialismo do final do século vinte e início do vinte e um. Além disso, Magdoff se baseou na complexidade e na natureza multifacetada da abordagem original de Lênin, tentando replicá-la a uma era posterior. Magdoff havia projetado as medidas estatísticas de produtividade (ainda usadas hoje pelo U.S. Department of Labor [Departamento de Trabalho dos Estados Unidos]) para o Projeto de Pesquisa Nacional da Works Progress Administration [Administração de Progresso de Obras] sobre Oportunidades de Reemprego e Desenvolvimento Tecnológico durante o New Deal nos anos 1930. Ele foi uma figura central na organização da indústria de guerra dos EUA na Segunda Guerra Mundial como chefe da Divisão de Requisitos Civis da Comissão Consultiva de Defesa Nacional e seu papel na Comissão Para o Esforço de Guerra, onde foi encarregado do planejamento e controle nas indústrias de maquinário. Ele posteriormente dirigiu a Divisão de Análise de Negócios Atuais do Departamento de Comércio onde supervisionou o Survey of Current Business [Levantamento de Negócios Atuais] do governo Americano e depois serviu de assessor econômico ao Secretário de Comércio (e ex Vice Presidente dos EUA), Henry Wallace. Esse histórico extraordinário na construção e análise das estatísticas econômicas dos EUA e planejamento nos tempos de guerra indicam que Magdoff estava muito apto a fornecer demonstrações empíricas definitivas do imperialismo econômico por parte das corporações Americanas e do Estado Americano, além de sua relação com as dimensões mais amplas do imperialismo mundial.10

Na exposição de Magdoff, o imperialismo não poderia ser visto de um alto nível de abstração algumas vezes usado para analisar a lógica do capital. Ao invés disso, uma abordagem razoável do imperialismo requer atenção aos funcionamentos internos do capitalismo global, informado pela abstração teórica, mas em última instância confirmado e levado a um nível concreto e histórico.11 Isso se conformava com o método do próprio Karl Marx, que desenvolveu sua crítica da economia política por meio de aproximações sucessivas que vão do abstrato ao concreto. Marx assim começou sua crítica com O Capital (originalmente previsto como o volume 1 em uma obra de seis volumes), representando o nível mais abstrato de análise, e pretendia completá-lo com o volume 5 sobre o Comércio Internacional e o volume 6 sobre A Economia Mundial e as Crises—ou seja, em termos de análise concreta do que hoje seria o sistema mundial imperialista. No entanto, ele nunca foi além do volume 1 do plano original, que se tornou os três volumes de O Capital.12

O imperialismo, argumentative Magdoff, era inerentemente complexo e mudava em suas configurações, refletindo tanto as forças centrípetas quanto as centrífugas que governavam o sistema. No que se trata do imperialismo Americano, deveria-se interpretar de maneira que fosse revelada uma “unidade essencial” entre os objetivos/tendências econômicos, políticos, e militares-estratégicos. O papel das corporações multinacionais no exterior não poderia ser separado do papel das bases militares dos EUA espalhadas pelo planeta ou da necessidade de controlar o petróleo e outros recursos estratégicos. Magdoff deu o seu melhor em refutar aqueles que tentaram alegar: (1) que o investimento estrangeiro direto e o comércio eram de pouca importância econômica para os Estados Unidos (ele demonstrou que o investimento estrangeiro direto subiu de cerca de 10 por cento dos lucros corporativos não financeiros após impostos dos EUA em 1950 para cerca de 22 por cento em 1964); (2) que a economia dos EUA não era dependente de petróleo ou outras matérias primas localizadas no estrangeiro e que não haveriam interesses geopolíticos inerentes neles; e (3) que os lucros dos EUA eram influenciados apenas marginalmente pelo excedente extraído da periferia do sistema mundial.13 O fato que outros grandes países capitalistas todos aderiram à hegemonia dos EUA não significa que a competição intercapitalista tenha completamente desaparecido e não voltaria a aparecer no futuro. Respondendo aos que questionaram se “seria o imperialismo realmente necessário” aos Estados Unidos, Magdoff explicou que “o imperialismo é o modo de vida do capitalismo14

Para Magdoff, escrevendo no final dos anos 1960 e início dos ‘70, as principais mudanças na estrutura do imperialismo desde o tempo de Lênin—para além da descolonização e a ascensão da hegemonia Americana—estavam todas relacionadas ao avanço no desenvolvimento do capital monopolista: (1) o surgimento do complexo industrial-militar; (2) o crescimento das corporações multinacionais (incluindo bancos multinacionais) e seu crescimento e penetração na periferia; e (3) “a prioridade dos interesses da indústria militar-multinacional nos assuntos do Estado”. Essa descrição, notou ele, se aplicava primeira e inicialmente aos próprios Estados Unidos, mas refletia relações  que também se materializavam entre poderes imperiais rivais. Em suma, ele apontava uma tendência dentro do sistema para a formação de um capitalismo monopolista mais generalizado, começando nos Estados Unidos, mas que dominaria todo o globo. Um elemento chave na Era do Imperialismo de Magdoff é seu capítulo sobre o crescimento da “Rede Financeira” investigando todo o fenômeno dos bancos, e finanças no geral, multinacionais—um estudo que ele aprofundou no início dos anos 1990 em Globalização: Para qual Finalidade?, que incluiu a análise da “Globalização das Finanças”15

Argumentaremos aqui que a globalização da produção (e das finanças)—que emergiu junto com o neoliberalismo a partir da estagnação econômica de meados dos anos 1970 e depois acelerada com a morte das sociedades de tipo-Soviético e a reintegração da China ao sistema mundo capitalista—gerou um capitalismo monopolista mais generalizado, teorizado por pensadores como Magdoff, Baran, Sweezy e Amin. Isso marcou o início do que pode ser chamado de imperialismo tardio.

Imperialismo tardio remete ao período presente do capital monopolista-financeiro e a estagnação, ao declínio da hegemonia dos EUA e conflito mundial crescente, acompanhado por crescentes ameaças às bases ecológicas da civilização e da própria vida. Ele é fundamental para as relações hierárquicas extremas que governam a economia mundial capitalista no século XXI, que é cada vez mais dominado por mega corporações multinacionais e um punhado de estados no centro do sistema mundo. Assim como agora é comum se referir ao capitalismo tardio em reconhecimento que o fim dos tempos causado por deslocamentos econômicos e ecológicos simultâneos, também é necessário falar hoje do imperialismo tardio, refletindo a dimensão global e as contradições desse sistema, cortando todas as outras divisões, e posicionando uma “ruptura global” no desenvolvimento histórico humano: uma crise de época que levanta a questão da “ruína ou revolução”.16

A falha persistente de muitos na esquerda, particularmente em países de capitalismo avançado, em reconhecer esses desenvolvimentos é principalmente o resultado de um crescente abandono da teoria do imperialismo, substituída por concepções mais reificadas se tratando da globalização, vista como uma dissolução das hierarquias imperiais de antes. Tanto é assim que uma série de estruturas alternativas são oferecidas, sugerindo: (1) o papel progressista e auto-aniquilador do imperialismo; (2) mudanças de hegemonias dentro do sistema mundial concebidas como substitutas para a teoria do imperialismo; (3) Império “desterritorializado” (sem estado, sem fronteiras); (4) imperialismo político abstrato por parte dos Estados Unidos ou o domínio por organizações supranacionais removidas das forças econômicas; (5) o crescimento do transnacionalismo como uma entidade própria, amplamente independente dos Estados e da geografia; e (6) uma suposta reversão da dominação imperialista. Portante, antes de examinar o fenômeno histórico do imperialismo tardio, é necessário abordar alguns desses equívocos predominantes na esquerda dos próprios países imperialistas, resultante de uma recusa em chegar a um acordo com as complexas realidades estruturais multifacetadas do imperialismo tardio no século XXI

A Esquerda Ocidental e a Negação do Imperialismo

A questão do abandono da crítica ao imperialismo dentro de grande parte da esquerda Ocidental foi dramaticamente pautada por Prabhat Patnaik em seu artigo da Monthly Review de Novembro de 1990 intitulado “O que aconteceu ao imperialismo?”. Escrito duas décadas depois da Era do Imperialismo de Magdoff, e um pouco mais de uma década depois de Imperialismo: da Era Colonial ao Presente, Patnaik, economista da Universidade Jawaharlal Nehru em Nova Déli, observou:

Um observador externo não pode deixar de notar uma transformação notável que se deu no discurso marxista nos Estados Unidos ao longo da última década: quase ninguém mais fala sobre o imperialismo. Em 1974 eu saí de Cambridge, Inglaterra, onde lecionava economia, e agora retorno ao Ocidente, desta vez aos Estados Unidos, depois de 15 anos. Quando eu saí, o imperialismo ocupava talvez o lugar mais proeminente em qualquer discussão marxista, e em lugar nenhum se escrevia mais ou se falava mais desse assunto do que nos Estados Unidos—tanto que muitos marxistas europeus acusavam o marxismo americano de estar manchado com o “terceiro mundismo”…. Marxistas de todas as partes buscavam nos Estados Unidos por literatura acerca do imperialismo….

Obviamente este não é o caso hoje em dia. Marxistas mais jovens [nos Estados Unidos] parecem confusos quando o termo é mencionado. Questões candentes do dia…são discutidas, mas sem qualquer referência ao imperialismo. Indignação radical quanto a invasão do Panamá ou a intervenção militar na Nicarágua e em El Salvador não se transforma em proposições teóricas sobre o imperialismo. E esse tópico virtualmente desapareceu das páginas de jornais marxistas, especialmente aqueles de uma leva posterior.

Curiosamente, isso não se dá porque alguém teorizou contra o conceito. O silêncio sobre o imperialismo não é resultado de um intenso debate onde a balança inclinou-se decisivamente em favor de um lado; não é um silêncio teoricamente autoconsciente. Nem se pode considerar que o mundo mudou tanto na última década e meia que falar de imperialismo tenha se tornado um anacronismo óbvio.17

Na época, Patnaik atribuiu a mudança na perspectivas de esquerda nos Estados Unidos à uma ausência de uma grande guerra, no período dos anos 1975-90. Mas de igual importância nos anos 1980 e começo dos ‘90s, governando o clima nos círculos radicais estava a evolução da situação econômica, com a economia dos EUA, juntamente com a de outros países capitalistas avançados, passando por um aprofundamento da estagnação econômica em contraste com o crescimento mais acelerado em algumas partes da Ásia. Nessa base instável, a tese da dependência do “desenvolvimento do subdesenvolvimento”, tornada famoso especialmente por Andre Gunder Frank, escrevendo na Monthly Review, foi designada como errônea mesmo por muitos na esquerda—apesar do fato de que a diferença na renda nacional entre os principais países imperiais e o mundo em desenvolvimento como um todo continuavam a aumentar, com a parcela da renda mundial recebida pelos 20 por cento mais ricos da população mundial (dividida em estados-nação) aumentando de 66 por cento em 1965 para 83 por cento em 1990.18

O teórico marxista Bill Warren argumentou ainda em 1973 em “O Imperialismo e a Industrialização Capitalista” na New Left Review que a dependência nos países pobres estava em “declínio irreversível” devido a “um grande aumento” no desenvolvimento capitalista do terceiro mundo. De acordo com Warren, Marx, em artigos como “O Domínio Britânico na Índia” considerou que o colonialismo/imperialismo desempenhou um papel construtivo nos países subdesenvolvidos. Isso depois foi erroneamente “invertido” por Lênin no seu Imperialismo, que representou uma “meia volta” na teoria Marxista, dando origem à teoria da dependência. Os problemas do desenvolvimento enfrentados pelos países mais pobres, argumentava Warren, não eram primariamente externos, como retratado pelos dependistas, mas pode ser atribuída a “contradições internas”. Essa perspectiva, ainda que não popularizada nos anos 1970 quando Warren a apresentou pela primeira vez, ganharia considerável influência dentro da esquerda Ocidental em 1980, quando sua obra póstuma O Imperialismo: Pioneiro do Capitalismo foi publicado.19

Uma divergência bastante diferente das teorias clássicas do imperialismo apareceu no posfácio à edição de 1983 de A Geometria do Imperialismo de Giovanni Arrighi. Um importante teórico de sistemas mundiais de inspiração marxiana, Arrighi acabou abandonando a teoria do imperialismo, que ele não considerava mais relevante, substituindo-a com uma concepção mais limitada das lutas pela hegemonia mundial. O modelo do sistema mundial capitalista, com suas hegemonias inconstantes era visto por Arrighi como um substituto adequado à noção mais complexa do imperialismo. O declínio do Estado-nação na esteira da globalização significava que as antigas teorias do imperialismo haviam se tornado “obsoletas”, e a teoria do capitalismo monopolista igualmente era vista como datada. O que restava era um sistema mundo e a disputa pela hegemonia.20

Contudo, as mais profundas rejeições de esquerda da crítica marxista do imperialismo teriam de aguardar o século presente. Em 200, Michael Hardt e Antonio Negri publicaram Império, argumentando que o imperialismo agora eram uma coisa do passado—com a Guerra do Vietnã representando “o momento final da tendência imperialista”—apenas para ser substituído por uma nova ordem constitucional global e mercado mundial deteriorados modelados às relações político-econômicas dos EUA, em uma versão de esquerda do “fim da história” de Francis Fukuyama. O imperialismo hierárquico de antigamente, argumentavam Hardt e Negri, havia sido sucedido pelo “espaço tranquilo do mercado capitalista mundial”—uma visão que antecipou por cinco anos o analista da globalização neoliberal, Thomas L. Friedman, a afirmação de que “o mundo é plano”. Portanto, “já não era possível”, escreveram, “demarcar grandes zonas geográficas como centro e periferia, Norte e Sul”. Essa transcendência do imperialismo em favor de uma soberania do Império sem estado e sem fronteiras, baseada no mercado global consistindo de uma mera rede de relações sem um centro e periferia, foi vista como emergindo da lógica interna do próprio capitalismo. “O imperialismo”, afirmaram Hardt e Negri, “na verdade cria uma camisa-de-força para o capital”, cuja lógica interna em última análise, requer um “espaço tranquilo” ou mundo plano no qual operar.21

Essas ideias dificilmente eram novas, exceto nos círculos marxianos. O que era inovador era o uso de terminologia marxiana e pós-moderna para impulsionar as visualizações há muito promovidas dentro da política externa do establishment dos EUA, o que resultou no trabalho de Hardt  e Negri ser altamente elogiado pelo  New York Times, Time magazine, Foreign Affairs, e outras publicações tradicionais. Foi isso que levou Ellen Meiksins Wood a se referir ao livro Império de Hardt e Negri como, de fato, “um manifesto em prol do capital global”.22

A rejeição de Hardt e Negri a qualquer continuidade com as teorias clássicas marxianas do imperialismo abriu caminho a diversas abordagens, por vezes perspicazes, mas unidimensionais, por parte da esquerda, convergindo com a ideologia dominante. Em A Construção do Capitalismo Global de 2013, Leo Panitch e Sam Gindin salientaram a capacidade do estado EUA, primariamente por ações no Departamento do Tesouro e do Conselho da Reserva Federal, em criar um “mundo à sua imagem e semelhança”, subordinando o capital europeu a sua influência. O argumento, que foi inspirado em parte pela crítica de Peter Gowan do “Regime Dólar-Wall Street”, embora informativo, era quase exclusivamente político, sistematicamente minimizando a dimensão econômica do imperialismo, incluindo o capital financeiro, as corporações multinacionais, a continuidade da rivalidade internacional, e as condições deteriorantes do mundo subdesenvolvido. Panitch e Gindin portanto forneceram uma análise do império Americano, muito mais familiarizada com as opiniões recebidas, em oposição às concepções clássicas do imperialismo com suas numerosas dimensões críticas. Em A Construção do Capitalismo Global, a antiga estrutura de países imperialistas no centro e países dependentes na periferia deu lugar a “redes de produção nacional e também de finanças” tranquilas girando em torno do “lugar central do capitalismo Americano no capitalismo global”. O que foi transmitido foi uma ordem hegemônica mundial estável dos EUA, enraizada no consenso de Washington-Wall Street e aparentemente destinada a continuar indefinidamente—um reflexo de uma visão prevalecente dentro dos círculos da política externa dos EUA mas agora emanando da esquerda. Nessa interpretação, o capitalismo global surgido do “Império Americano” e administrado pelo Estado dos EUA englobava inteiramente as análises mais complexas e multifacetadas e, ao mesmo tempo, mais concretas do imperialismo oferecidas por pensadores como Lênin, Luxemburgo, Magdoff e Amin.23

Se Panitch e Gindin enfatizaram o surgimento do império político, dispensando amplamente o que John Hobson chamou de “a raiz principal econômica do imperialismo”, o teórico William I. Robinson foi na direção oposta, argumentando que o capital na era da globalização havia completamente engolido os estados-nacionais e criado uma nova ordem transnacional dominada por corporações transnacionais flutuantes, dando origem a uma “classe capitalista transnacional” e ao “estado transnacional”. Escrevendo em Uma Teoria sobre o Capitalismo Global em 2004, Robinson declarou que “a globalização envolve uma superação do estado-nacional como o princípio organizador da vida social sob o capitalismo”.24

Em 2018, em “Além da Teoria do Imperialismo” (um capítulo em sua obra Na Tempestade: ensaios sobre o novo capitalismo global), Robinson rompeu totalmente com as teorias clássicas do imperialismo: “As relações de classes do capitalismo global estão agora tão profundamente internalizadas dentro de cada estado-nação que a imagem clássica do imperialismo como uma relação de dominação externa está ultrapassada” e deve ser abandonada, junto com noções como centro, periferia e extração de mais valor. “O fim da extensa expansão do capitalismo é o fim da era imperialista do capitalismo mundial… Não é imperialismo no antigo sentido de capitais nacionais rivais” ou a dominação “por estados centrais das regiões pré-capitalistas” que é necessário, mas “uma teoria da expansão capitalista” como um processo especificamente transnacional e supranacional caracterizado pela mudança “da dinâmica espacial”.25

Enquanto isso, o geógrafo marxista David Harvey saltou para além de todas essas perspectivas, afirmando em 2017 que os fluxos de capital mudaram tanto de direção que “a histórica fuga de riqueza do Oriente para o Ocidente por mais de dois séculos foi… amplamente revertida nos últimos trinta anos” (ênfase adicionada). Ele admitiu: “não acho a categoria de imperialismo tão convincente”. O imperialismo não era um conceito a ser encontrado em Marx, mas principalmente atribuível a Lênin. Toda a noção das “periferias” globais foi tratada como pouco clara quanto às suas fronteiras, e a noção de Arrighi de “hegemonias inconstantes” poderia ser vista como um deslocamento das teorias marxistas anteriores do imperialismo.26

Em seu livro de 2003 O Novo Imperialismo—um escrito que ele agora diz não foi feito para promover o conceito do imperialismo mas sim para combater as tentativas neoconservadoras de adotar o termo como seu—Harvey elogiou a descrição de Hardt e Negri de “uma configuração descentrada do império que tinha muitas novas qualidades pós-modernas”. Seu livro terminou defendendo um novo “Imperialismo do New Deal”, visto como um imperialismo mais progressista sob um Consenso de Washington mais iluminista, substituindo a ordem global atual neoliberal/neoconservadora. Para Harvey, a esquerda deveria ser castigada por sua “recepção fria” à noção de Warren do caráter progressista do imperialismo.27

Se a posição de Harvey sobre o imperialismo ao longo dos anos foi algo um tanto incoerente, sua rejeição atual à noção de um sistema mundo imperialista em nome de uma visão supostamente mais dinâmica focando em configurações espaciais constantemente móveis, que “reverteram” as relações centro-periferia tradicionais, não poderia ser mais clara em suas implicações. Ao se referir as tendências à globalização contemporânea, ele explica que “nem mesmo fazia sentido tentar amontoar tudo isso em algum conceito universal de imperialismo”. Toda a análise marxiana do imperialismo se tornou uma “camisa-de-força” teórica.28 Em conformidade com Arrighi, ele descarta a geografía rígida de núcleo e periferia… em favor de uma análise mais aberta e fluida”.29 Neste processo, porém, se faz necessário romper com toda a crítica materialista-histórica do imperialismo. Em seu livro de 2014, 17 Contradições e o Fim do Capitalismo, o imperialismo nem sequer consegue uma inclusão entre sua lista de dois dígitos das contradições do capitalismo. Em seu capítulo sobre “Desenvolvimentos Geográficos Desiguais e Produção de Espaço” não menciona uma única vez o imperialismo, nem centro e periferia. A única referência direta ao Imperialismo de Lênin visa minimizar o papel estrutural do capital monopolista, que Lênin associou ao imperialismo.30

O Imperialismo Tardio

Não há dúvida que o capitalismo mundial tenha mudado no século desde a Primeira Guerra Mundial, quando Lênin desenvolveu sua crítica da fase imperialista. Ainda assim, isso deve ser visto no contexto de uma dialética histórica que abrace tanto a continuidade quanto a mudança. O imperialismo é uma categoria tanto histórica quanto teórica. Se meio século atrás ainda era possível se referir, como Magdoff, à “era do imperialismo”, a ponto de tratá-la como a “era de ouro” do imperialismo, hoje estamos claramente em uma era de imperialismo tardio associado a: capital monopolista-financeiro generalizado; a globalização da produção; novas formas de extração de mais-valor da periferia para o centro; e desafios econômicos, militares e ambientais de época. As crises que encaram o sistema e a sociedade humana como um todo agora são tão severas que estão criando novas fissuras no estado tanto em economias de capitalismo avançado quanto emergentes, com um rápido crescimento de tendências proto fascistas e neofascistas, por um lado, e um renascimento do socialismo, por outro.

Reconhecer a continuidade com as fases anteriores do imperialismo é tão crucial para nosso entendimento do presente quanto nossa percepção das características distintivas da fase atual. Casa fase histórica do imperialismo depende de diferentes meios de exploração e expropriação para alimentar a acumulação em escala mundial. Países imperialista no núcleo do sistema invariavelmente tentam reestruturar o trabalho na periferia capitalista (ou nas áreas externas pré-capitalistas) para reforçar o poder e a acumulação no centro do sistema. Ao mesmo tempo, o núcleo das nações imperialistas estão frequentemente em competição entre si por esferas globais de influência. O início da era colonial na etapa mercantilista do capitalismo durante os séculos dezesseis e dezessete centrava-se não no livre intercâmbio mas no “lucro por expropriação”, junto com “extirpação, escravização e sepultamento em minas da população indígena” das Américas e da maior parte da África e Ásia.31

Posteriormente, na era colonial ou a etapa da livre competição sob hegemonia britânica em meados do século dezenove, o livre comércio operava no cerne da economia mundial, mas isso andava de mãos dadas com o colonialismo em grande parte do mundo, onde o intercâmbio desigual, e o roubo e pilhagem descarados predominavam. Em 1875, Robert Arthur Talbot Gascoyne-Cecil, o 3rd Marquês de Salisbury, então secretário de estado da Índia Britânica, declarou: “Como a Índia deve sangrar, o sangramento deve ser feito judiciosamente”.32 Sangrada ela foi, mas não “judiciosamente”. Como Utsa Patnaik demonstrou em detalhe, o valor presente da “drenagem” de superávits da Índia para a Grã Bretanha de 1765 a 1938 totaliza “em uma base muito subestimada” £9.2 trilhões, comparados a um produto interno bruto (PIB) de £2.1 trilhões do Reino Unido em 2018.33

O capitalismo colonial do século dezenove evoluiu ao final do século para o que Lênin chamou de etapa imperialista, caracterizada pela ascensão do capital monopolista em todas as grandes potências, o declínio da hegemonia Britânica, a crescente tensão pela divisão de todo o mundo entre o núcleo de potências capitalistas. Essas condições levaram a duas guerras mundiais entre pretendentes rivais da hegemonia sobre o território econômico. Após a Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos emergiram como a potência hegemônica dentro do mundo capitalista, num contexto que também incluía uma Guerra Fria com o mundo rival de orientação socialista. Enquanto promovia uma ideologia de livre comércio e desenvolvimento, a potência hegemônica dos EUA no entanto pôs em prática um sistema de neocolonialismo aplicado por corporações multinacionais, a hegemonia do dólar, e uma série de bases militares por todo o globo—a partir das quais numerosas intervenções militares e guerras regionais seriam lançadas. Isso foi acompanhado pelo desvio de grande parte do superávit econômico do Sul global.

Com a ascensão do capital monopolista-financeiro, o mundo entrou uma nova fase do imperialismo, o imperialismo tardio, representa uma época em que as contradições globais do sistema são reveladas de maneira ainda mais gritante em que o planeta todo como um lugar de habitação humana está agora em risco—com os efeitos catastróficos recaindo desproporcionalmente sobre a parcela mais vulnerável da população mundial. Tudo isso tende a gerar maiores conflitos geopolíticos a medida que a falha do capitalismo como uma sociedade se torna mais evidente. 

Nada disso foi uma surpresa completa para os analistas mais astutos da globalização. Em 1992 Magdoff escreveu que,

contrário às expectativas generalizadas, fontes de tensão entre as principais potências capitalistas cresceram ombro a ombro com a crescente interdependência entre eles. Tampouco a extensão geográfica do capital reduziu as contradições entre as nações ricas e pobres. Apesar de um punhado de países de terceiro mundo, se beneficiando do processo de globalização, fazerem progresso notável na industrialização e no comércio, a disparidade generalizada entre nações centrais e periféricas continuou a crescer… O processo de globalização produziu muito do que há de novo na economia e na política mundial, mas não mudou as formas básicas de operação do capitalismo. Tampoco ajudou nas causas de paz ou prosperidade.34

Realmente, há algo profundamente irônico sobre a rejeição da crítica teórica ao imperialismo no contexto global atual. Como observou o marxista argentino Atilio Borón em 2003 em seu livro “Império” e Imperialismo, o imperialismo hoje reflete aquelas “características fundamentais” a respeito da concentração e centralização de capital numa escala global apresentadas pelos teóricos marxistas clássicos do imperialismo, mas de formas mais desenvolvidas:

Esta nova etapa [do imperialismo no sentido de Lênin] é caracterizada, hoje ainda mais que no passado, pela concentração de capital, pela predominância avassaladora de monopólios, pelo papel cada vez mais importante desempenhado pelo capital financeiro, pela exportação de capital e pela divisão do mundo em “esferas de influência”. A aceleração da globalização que se deu no quartil final do último século, em vez de enfraquecer ou dissolver as estruturas imperialistas da economia mundial, ampliaram as assimetrias estruturais que definiam a inserção de diferentes países nela. Enquanto um punhado de nações capitalistas desenvolvidas aumentaram sua capacidade de controlar, ao menos parcialmente, os processos produtivos a nível global, a financeirização da economia internacional e a crescente circulação de bens e serviços, a grande maioria dos países testemunhou um crescimento de sua dependência externa e a disparidade cada vez maior que os separava do centro. A globalização, em resumo, consolidou a dominação imperialista e aprofundou a submissão dos capitalismos periféricos, que se tornaram mais e mais incapazes de controlar seus processos econômicos domésticos sequer marginalmente.35

A nova fase do imperialismo que surgiu ao final do século vinte e início do vinte e um foi descrita por Amin e vários autores associados à Monthly Review como um sistema global de capital monopolista-financeiro ou um capitalismo de “monopólios generalizados”.36 Neste sistema imperialista mais integrado, quinhentas corporações são responsáveis por 40 por cento da receita mundial enquanto a maioria das outras firmas na economia mundial estão entremeadas nas redes dessas firmas gigantes e existem como meros subcontratados.37 A produção e a circulação agora são organizados na forma de redes globais de mercadoria, servindo para destacar os diferentes papéis de centro e periferia dentro dessas redes de mercadorias. Isso está de acordo com a arbitragem global de trabalho, que serve para promote a exploração/expropriação intensificada de trabalho no Sul global, levando à captura de muito desse valor extra pelo Norte. O aumento dos controles imperialistas das finanças e comunicações globais são partes inerentes deste processo, sem o qual a globalização da produção não seria possível.38

O final dos anos 1970 e início dos 80s viu o crescimento da globalização neoliberal, que buscou com considerável sucesso subordinar estados, particularmente no Sul global, às regras do mercado mundial onde, por definição, os centros financeiros dominam. O imperialismo tardio pode então ser visto como um período em que a estagnação econômica, a financeirização, e a crise ecológica planetária emergiram como fissuras crescentes e irreversíveis, inseparáveis do sistema de acumulação monopolista-capitalista em si, e encontrando sua justificativa ideológica no neoliberalismo.

Uma característica distinta da produção e finanças globalizadas no presente século é a exploração sistemática de baixos custos laborais no Sul, um produto do fato de que os salários se mantém em níveis muito abaixo dos do Norte graças à: (1) o enorme exército de reserva global localizado primariamente no Sul; (2) restrições à circulação de mão de obra entre os países, e particularmente dos países pobres para os ricos; e (3) a força das pressões imperialistas do passado e do presente.39 Como explicou o economista Tony Norfield, ex diretor executivo e chefe global de estratégia de câmbio em um grande banco europeu, em 2015 no artigo “T-Shirt Economics: Trabalho na Economia Mundial Imperialista”,

todo mundo sabe que os trabalhadores nos países capitalistas desenvolvidos são pagos mais que aqueles nos países mais pobres. Porém a divergência nos salários médios, no entanto, pode ser surpreendente: não apenas 20 por cento ou 50 por cento, mas sim um fator de 2, 5, 10 ou 20 entre os países mais ricos e os mais pobres. A teoria econômica tradicional explica isso—e justifica isso— ao argumentar que os trabalhadores nos países mais ricos são mais produtivos que nos países pobres, porque os primeiros são mais educados e habilitados, trabalhando com níveis mais altos de tecnologia. Ainda assim essa explicação não cai bem com a realidade que muitos empregados manufaturadores nos países pobres são empregados, direta ou indiretamente, por grandes corporações, e trabalham com tecnologia que normalmente é comparável à dos países ricos.40

A produção por (ou contratada por) multinacionais estrangeiras nos países pobres depende da mesma ou quase a mesma tecnologia utilizada nas economias ricas, levando a níveis comparáveis de produtividade. O resultado, combinado com salários extremamente baixos, é que os custos laborais para se manufaturar nas assim chamadas economias emergentes da China, Índia, Indonésia e México em 2014 eram de apenas 46, 37, 62, e 43 por cento, respectivamente, dos níveis [salariais] dos EUA.41 Isso gera margens de lucro bruto altamente infladas para as multinacionais sediadas no Norte. O custo total de produção (refletido no preço de exportação) para uma camiseta produzida em 2010 via uma subcontratada em Bangladesh trabalhando para a firma sueca Hennes & Mauritz (H&M) era 27 por cento do preço final de venda na Europa, com os operários em Bangladesh recebendo uma mera esmola por seu trabalho. Um trabalhador na fábrica recebe €1.36 por dez a doze horas [de trabalho] por dia.42 A marcação de preço (ou margem de lucro bruto) em um iPhone montado na China em 2009 era mais de 64 por cento.43 As crescentes margens de lucro bruto associadas com a arbitragem global de trabalho levaram à rápida globalização da produção, com a participação mundial do emprego industrial localizado em economias em desenvolvimento (incluindo as emergentes) aumentando de 52 por cento em 1980 para 83 por cento em 2012.44

Hoje, uma grande e rapidamente crescente porção da produção é terceirizada para a periferia na forma de contratos à distância ou o que é conhecido como os modos de produção não-equitativos (como contratos de locação, licenciamento, franquia e serviços de gestão), constituindo um tipo de meio termo entre o investimento estrangeiro direto por multinacionais e um comércio real. Em 2010, os modos de produção não-equitativos geraram mais de $2 trilhões em vendas.45

Ainda assim, nem toda a rede de produção de valor explorando baixos custos laborais no Sul global assume a forma da subcontratação ou dos modos de produção não-equitativos. Grande parte dela ocorre na forma do mais tradicional investimento estrangeiro direto por multinacionais. Apenas em 2013, a receita Americana de investimentos no exterior em companhias estrangeiras, ações, títulos, etc., somou $773.4 bilhões, enquanto os pagamentos Americanos sobre seus passivos de investimentos que estrangeiros fizeram nos Estados Unidos somaram apenas $564.9 bilhões, resultando em um ganho líquido de cerca de US$209 bilhões (igual a cerca de 35 por cento do total do investimento doméstico privado líquido dos EUA naquele ano). Isso apenas acelera os problemas da absorção de capital excedente.46 Como escreveram Baran e Sweezy em 1966 em O Capital Monopolista, “o investimento estrangeiro, longe de ser uma saída para o superávit gerado internamente, é um mecanismo muito eficiente para transferir superávit gerado no estrangeiro para o país investidor. Sob essas circunstâncias é, claro, óbvio que o investimento estrangeiro agrava em vez de ajudar a resolver o problema da absorção de [capital] excedente”.47

Outros problemas também entram na transferência de valor dos países desenvolvidos, incluindo a fuga de capitais do Sul global estimado em mais de $1.7 trilhões de dólares em 2012.48 Realmente, toda forma de transação financeira entre o Norte global e o Sul incluem um elemento do que Marx chamava “lucro pela expropriação” ou simples roubo, refletindo as relações de poder desiguais.49 Como escreve Norfield, as finanças “são uma maneira dos países ricos de obter renda do resto da economia mundial”.50 Um relatório de 2015 do Centro de Economia Aplicada da Escola Norueguesa de Economia e a Global Financial Integrity [Integridade Financeira Global], dos Estados Unidos, estima que as transferências líquidas de recursos, muitas delas ilícitas, de países em desenvolvimento (independente das transferências ocultas associadas ao intercâmbio desigual) somavam $2 trilhões somente em 2012—aumentando para $3 trilhões se as estimativas de falsificação do mesmo relatório forem incluídas.51

Uma série de estudos foram realizados para estimar o tamanho das transferências ocultas de valor devido às relações de troca desiguais entre o Sul e o Norte globais, através do qual o último obtém “mais trabalho em troca de menos.”52 Uma abordagem, preconizada pelo economista canadense Gernot Köhler, utilizou dados de Paridade de Poder de Compra (PPC) para demonstrar como o trabalho é incorporada em produtos de exportação do Sul global—dada a diferença entre taxas de câmbio reais e nominais—falhou em refletir quanto valeria esse trabalho em termos de poder de compra local na economia emergente. Nas palavras de Jason Hickel em O Abismo:

O método de Köhler é de calcular a diferença entre as taxas de câmbio nominais e as taxas de câmbio reais (ou seja, corrigida para o poder de compra) de bens comercializados. Por exemplo, imagine uma taxa de câmbio nominal entre o dólar americano e a rúpia indiana de 1:50. Agora imagine que a índia envie R1.000 em mercadorias para os EUA, e receba $20 em retorno. Seria uma troca perfeitamente igual. Ou pelo menos assim parece. O problema é que a taxa de câmbio nominal não é exatamente correta. Na Índia, R50 podem comprar muito mais do que o valor equivalente de $1 em bens. A título de exemplo, talvez possa comprar mais próximo de $2. Então a taxa de câmbio real, em termos de poder de compra, é de 1:25. Isso significa que quando a Índia envia R1.000 em mercadorias para os EUA, foi na realidade o equivalente a enviar o valor de $40, em termos do valor que R1.000 poderia comprar na índia. E ainda assim, a índia recebe apenas $20 em retorno, o que em termos reais vale apenas R500. Em outras palavras, por causa dessa distorção entre as taxas de câmbio reais e nominais, a Índia enviou $20 (R500) a mais do que recebeu. Uma maneira de se pensar nisso é que os produtos de exportação da índia valem mais do que o preço que lhes é pago no mercado mundial. Outra maneira é que o trabalho da índia é mal pago em relação ao valor que produz.53

Os resultados empíricos de Köhler, baseados na PPP, poderia, portanto, ser visto como uma medida aproximada da transferência de valor gerado nos países do Sul (não membros da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico [OCDE]), mas creditado nos países do Norte (da OCDE), via o que os economistas chamam de intercâmbio desigual. Deste modo, ele foi capaz de estimar que tais transferências de valor somente em 1995 totalizaram US$1,75 trilhão, representando prejuízos equivalentes a quase um quarto do PIB total dos países não membros da OCDE.54 Apesar de tais estimativas empíricas estarem abertas a questionamento em uma quantidade de aspectos, pode haver poucas dúvidas sobre a realidade subjacente ou a ordem de magnitude da “renda imperialista”.55

Como argumenta John Smith, “os vastos fluxos S-N de valor” associados com o intercâmbio desigual “desaparecem invisíveis nas estatísticas do PIB, comércio e fluxos financeiros” precisamente porque o valor gerado no Sul é “capturado” no Norte. Todas as fontes de renda, sejam salários, lucros, rendimentos e juros, decorrentes das enormes margens de lucro bruto sobre a produção do Sul são simplesmente contabilizados como valor agregado no Norte global, contribuindo para o PIB do Norte.56

Os grandes lucros da terceirização e outros meios de captura global de valor exacerbam ainda mais os problemas da absorção de capital excedente. Muito dessa renda imperialista termina em paraísos fiscais e se torna um meio de acumular riqueza financeira concentrada em um pequeno número de corporações e indivíduos ricos, enquanto permanece em grande parte desconectado do processo contínuo e cada vez mais problemático de produção, investimento e crescimento nos Estados Unidos e outras nações imperialistas.57 Isso por sua vez piora o problema geral da estagnação, caracterizado por excesso de capacidade, subemprego, crescimento lento, desigualdade crescente e bolhas e crises financeiras periódicas.

Amin argumentou que a renda imperialista possuía dois componentes distintos. O primeiro seria a renda derivada da exploração imperialista do trabalho do Sul. A segunda seria a drenagem dos recursos naturais do Sul e as violações à sua soberania a esse respeito por corporações multinacionais e estados imperialistas. Apesar da primeira forma de renda imperialista ser, pelo menos em princípio, mensurável em termos de valor, a segunda forma de renda, já que se tratava dos valores de uso (e a apropriação do capital dos presentes gratuitos da natureza), em vez de valores de troca, não o é.58 No entanto, Marx, insistia ele, forneceu maneiras de perceber as contradições ecológicas e o imperialismo ecológico.

O imperialismo trava uma enorme luta pelo controle dos recursos estratégicos. Estima-se que as forças armadas dos EUA gastam aproximadamente 16 por cento de seu orçamento básico apenas com a proteção direta do abastecimento global de petróleo.59 É difícil exagerar, como enfatizava Magdoff, até que ponto os interesses militares e de recursos naturais estão inter-relacionados. A hegemonia militar desempenha papel central em todas as questões sobre assegurar o território econômico e os recursos estratégicos.

As corporações multinacionais são intrinsecamente ligadas ao poderio financeiro e político-militar dos estados particulares nas quais elas estão baseadas, sem os quais elas não poderiam existir por um momento, e dos quais sua capacidade de participar efetivamente na competição internacional depende. No caso das cem maiores corporações não financeiras do mundo, três quartos têm sua origem em apenas seis países: Estados Unidos, Reino Unido, França, Alemanha, Japão e Suíça. De acordo com Norfield,

o que distingue uma companhia imperialista não é seu tamanho ou sucesso competitivo, ou mesmo sua importância global como uma grande produtora de bens ou serviços, apesar de quase sempre ser uma grande companhias dadas as vantagens trazidas que ela desfruta. O que a distingue é o apoio que ela recebe de estados-nação poderosos na economia mundial, e qualquer vantagem é porque ela está localizada em e identificada com aquele estado imperialista. Do mesmo modo, o que em termos econômicos distingue um estado imperialista é sua habilidade de exercer poder na economia mundial através de suas companhias capitalistas “nacionais”.60

Fim dos Tempos

O imperialismo hoje é mais agressivo e desmedido em seus objetivos do que nunca.61 No presente período de decadência da hegemonia Americana, assim como declínio econômico e ecológico, o regime dólar-petróleo-Pentágono, respaldado por toda a tríade dos Estados Unidos/Canadá, Europa, e Japão, exerce todo seu poder militar e financeiro para ganhar vantagens geopolíticas e geoeconômicas.62 O objetivo é subordinar ainda mais aqueles países na parte inferior da hierarquia mundial, ao mesmo tempo que colocar obstáculos no caminho das economias emergentes, e derrubar todos os estados que violam as regras da ordem dominante. Conflitos internos dentro da tríade continuam a existir mas são atualmente suprimidos, não apenas devido à força esmagadora do poder dos EUA, mas também como resultado da necessidade percebida no núcleo de conter a China e a Rússia, vistos como constituindo graves ameaças à ordem imperial vigente. Na China e na Rússia, por diferentes mas correlatas razões históricas, o capital monopolista-financeiro global não possui a combinação dominante com os capitalistas nacionais em suas economias políticas como é presente em outros países do BRICS. Enquanto isso, a União Europeia está em desarranjo, experimentando tendências centrífugas, em oposição às tendências centrípetas, que surgem da estagnação econômica e a instabilidade gerada pelos efeitos colaterais do imperialismo proveniente de regiões adjacentes, particularmente o Oriente Médio e Norte da África.

Sob essas circunstâncias, as redes globais de valor/suprimento, assim como a energia, os recursos, e as finanças, são mais e mais vistos em termos militares-estratégicos. No centro dessa ordem mundial entrelaçada, globalizada, está a instável hegemonia exercida pela Fortaleza América sobre tanto a Europa e o Japão. Os Estados Unidos hoje buscam uma estratégia de dominação de todo o espectro, visando não apenas o militar, mas também o domínio tecnológico, financeiro e até mesmo o “domínio energético” global—contra um cenário de catástrofe planetária iminente e desordem econômica e política.63

Nestas condições deteriorantes, tendências neofascistas reemergiram novamente, constituindo alternativa classista final do capital monopolista-financeiro—uma aliança entre o grande capital e uma classe média-baixa reacionária recentemente mobilizada.64 Mais e mais o neoliberalismo está se fundindo ao neofascismo, desencadeando o racismo e o nacionalismo revanchista. Movimentos de paz anti-imperialistas esmoreceram na maior parte do núcleo capitalista, mesmo no contexto de um renascimento da esquerda, levantando mais uma vez a questão do social imperialismo.65

Em certo sentido, é claro, muito disso é familiar. Como notou Magdoff,

as forças centrífugas e centrípetas sempre coexistiram no centro do processo capitalista, com às vezes uma, às vezes a outra predominando. Como resultado, períodos de paz e harmonia se alternaram com períodos de discórdia e violência. Geralmente o mecanismo dessa alternância envolve tanto formas de luta econômica quanto militar, com a potência mais forte emergindo vitoriosa e impondo aquiescência sobre os perdedores. Mas o desenvolvimento desigual logo assume o controle e surge um período de luta renovada pela hegemonia.66

O imperialismo tardio, porém, representa um ponto final histórico para a ordem mundial capitalista, pressagiando ou uma catástrofe planetária ou um novo começo revolucionário. Hoje a emergência do Sistema Terra renova a urgência à velha luta coletiva pela “liberdade em geral”.67 A luta humana mais ampla deve ser construída sobre a resistência revolucionária contínua dos trabalhadores e dos povos no Sul global, visando primeiramente uma derrubada do imperialismo, como manifestação global do capitalismo. O trabalho nas nações centrais não pode ser livre enquanto o trabalho nas nações periféricas seja livre e o imperialismo seja abolido.68 O que Marx chamava de socialismo, uma sociedade com desenvolvimento humano sustentável, só pode ser construído numa base universal. Todas as relações estreitas, hostis, de exploração devem acabar, e a humanidade deve finalmente confrontar com sentidos sóbrios suas relações com sua espécie e sua unidade com a terra.69

Não deixe de ver também o livro Introdução ao Imperialismo Tardio.


Notas

  1. I. Lênin, Imperialism: The Highest Stage of Capitalism (New York: International, 1939). Quando publicado em 1917, o título do panfleto de Lênin era Imperialism: The Latest Stage of Capitalism. Ver V. I. Lênin, Selected Works in Three Volumes (Moscow: Progress, 1977), 640–41, 801. Enfatizando esse fato, Witold Kula, um historiador polonês, escreveu em 1963: “As diferenças metódicas entre essas formulações são fundamentais. A determinação ‘a última [mais recente] etapa’ se refere ao passado… enquanto a determinação ‘a etapa superior’ diz algo a mais, também sobre o futuro; que no futuro não haverá ‘uma etapa mais alta’ do que essa”. Kula foi citado na introdução de John Bellamy Foster e Henryk Szlajfer, para A Economia Vacilante (New York: Monthly Review Press, 1984), 21. Consistente a isso, Lênin geralmente se refere no próprio texto de seu panfleto ao imperialismo como a “última etapa” ou “última fase” do capitalismo, em conformidade com o subtítulo ao livro de Rudolf Hilferding’s Finance Capital: The Latest Phase of Capitalism.
  2. Lênin, Imperialism, 78, 81–82, 88, 92. Foi em seu artigo de Outubro de 1916 “O Imperialismo e o Racha no Socialismo” em que Lênin pela primeira vez deu ênfase à concepção de imperialismo como a etapa superior, em oposição a etapa mais nova ou última, baseado em sua visão do caráter “moribundo” do capitalismo no início do século vinte. Isso ajuda a explicar a mudança posterior no título de seu panfleto, após sua primeira publicação em 1917. V. I. Lênin, Collected Works, vol. 23 (Moscow: Progress, 1964), 105–20. Em resposta a Lênin, Samir Amin escreveu que “o imperialismo não é uma etapa, muito menos a etapa superior do capitalismo: desde seu início ele é inerente à expansão capitalista.” Samir Amin, “Imperialism and Globalization,” Monthly Review 53, no. 2 (June 2001): 6. Lênin, porém, usou o termo em um duplo sentido, para se referir tanto ao imperialismo em geral, indo ao início do capitalismo, e também (de maneira mais focada) para se referir ao que era chapado em sua época de o “novo imperialismo”, ou a etapa imperialista (monopolista) do capitalismo.
  3. Lênin, Imperialism, 13–14, 85, 88, 91. Para aqueles que pensam que o Imperialismo de Lênin era um trabalho de sua época, é útil olhar para as mais de 700 páginas de notas, contendo trechos de 148 livros, e 232 artigos em Inglês, Francês e Alemão, que ele compilou ao preparar-se para escrita. Ver V. I. Lênin, Collected Works, vol. 39 (Moscow: Progress, 1968), 20.
  4. Rudolf Hilferding, Finance Capital (London: Routledge, 1981); Rosa Luxemburg, The Accumulation of Capital (New York: Monthly Review Press, 1951), Nikolai Bukharin, Imperialism and World Economy (New York: Monthly Review Press, 1929). Apesar de complementar em muitas maneiras a análise posterior de Lênin, a ênfase de Luxemburgo no imperialismo como destruição primária e assimilação de áreas externas pré-capitalistas enfraquece enormemente sua teoria, como notaram Utsa e Prabhat Patnaik, “como uma relação permanente sob capitalismo”. Utsa e Prabhat Patnaik, A Theory of Imperialism (New York: Columbia University Press, 2017), 87.
  5. Lênin, Imperialism, 89. A respeito da aristocracia operária, Lênin insistia que “uma camada superior do proletariado nos países imperialista vive parcialmente às custas de centenas de milhões de operários das [assim chamadas] nações não civilizadas” (Collected Works, vol. 23, 107). (Nota: Ao distinguir entre nações civilizadas e não civilizadas, Lênin colocou aspas sob a a primeira, e tratou-a, como na tradição socialista, como um eufemismo para o capitalismo.) Sobre a base histórica do tratamento de Lênin da aristocracia operária, ver Eric Hobsbawm, “Lênin and the ‘Aristocracy of Labor,’” in Lênin Today, ed. Paul M. Sweezy and Harry Magdoff (New York: Monthly Review Press, 1970), 47–56.
  6. I. Lênin, Selected Works in Three Volumes, vol. 3 (Moscow: Progress, 1975), 246, 372–78. A análise de Lênin do imperialismo muitas vezes foi convertida em uma teoria simplista de excesso de excedente nos estados capitalistas avançados e exportação de capital, enraizada no subconsumo. Essa interpretação de Lênin excessivamente rudimentar é exemplificada no influente livro de Bill Warren  Imperialism: Pioneer of Capitalism (London: Verso, 1980), 50–83. Para uma forte crítica dessa visão simplista, ver Prabhat Patnaik, Whatever Happened to Imperialism and Other Essays (New Delhi: Tulika, 1995), 80–101.
  7. S. Stavrianos, Global Rift (New York: William Morrow and Company, 1981), 623–24.
  8. Mark Blaug, “The Economics of Imperialism,” in Economic Imperialism, ed. Kenneth E. Boulding and Tapan Mukerjee (Ann Arbor: University of Michigan Press, 1972), 142–55; Benjamin J. Cohen, The Question of Imperialism (New York: Basic, 1973), 99–141; Barrington Moore, Jr., The Causes of Human Misery (Boston: Beacon, 1972), 117–32; Robert W. Tucker, The Radical Left and American Foreign Policy (Baltimore: Johns Hopkins University Press, 1971).
  9. Harry Magdoff, The Age of Imperialism (New York: Monthly Review Press, 1969); Harry Magdoff, Imperialism: From the Colonial Age to the Present (New York: Monthly Review Press, 1978).
  10. Para uma indicação de como Magdoff era muito mais adepto do uso de estatísticas econômicas do que seus críticos, ver “A Technical Note,” em Imperialism, 11–14.
  11. Magdoff, The Age of Imperialism, 18–19.
  12. Ernest Mandel, introduction to his planned Critique of Political Economy, vol. 1, Karl Marx (London: Penguin, 1976), 27–28; John Bellamy Foster, “The Imperialist World System,” Monthly Review 59, no. 1 (May 2007): 1–16. Samir Amin entendia que seu trabalho abordava a gama de questões que Marx pretendia para os volumes 5 e 6 de O Capital, porém não como Marx teria abordado em meados do século XIX, mas sim com relação ao final do século XX e início do século XXI. Ver Samir Amin, Modern Imperialism, Monopoly Finance Capital, and Marx’s Law of Value (New York: Monthly Review Press, 2018), 131–35.
  13. Magdoff, Imperialism, 239; Bernard Baruch, prefácio à The Revolution in World Trade and American Economic Policy, Samuel Lubell (New York: Harper, 1955), xi; Magdoff, The Age of Imperialism, 182.
  14. Magdoff, Imperialism, 260–61.
  15. Magdoff, Imperialism, 110–11; Magdoff, The Age of Imperialism, 67–113; Harry Magdoff, Globalization: To What End? (New York: Monthly Review Press, 1992), 17–25.
  16. Stavrianos, Global Rift. Sobre a “ruína ou revolução”, ver Karl Marx and Frederick Engels, Marx and Engels and the Irish Question (Moscow; Progress, 1971), 142.
  17. Prabhat Patnaik, “Whatever Happened to Imperialism?,” Monthly Review 42, no. 6 (November 1990): 1–14.
  18. Andre Gunder Frank, “The Development of Underdevelopment,” Monthly Review 18, no. 4 (September 1966): 17–31; Harry Magdoff, “A Note on the Communist Manifesto,” Monthly Review 50, no. 1 (May 1998): 11–13, reimpressa nesta edição.
  19. Bill Warren, “Imperialism and Capitalist Industrialization,” New Left Review 181 (1973): 4, 43, 48, 82; Warren, Imperialism: Pioneer of Capitalism, 48. Warren, diferente de muitos teóricos marxistas posteriores, estava ciente do papel de Lênin na ascensão da teoria da dependência no Segundo Congresso da Internacional Comunista em 1919. Ver Warren, Imperialism: Pioneer of Capitalism, 97–98; Research Unit for Political Economy, “On the History of Imperialism Theory,” Monthly Review 59, no. 7 (December 2007): 42–50. A afirmação de Warren de que Marx via o imperialismo como desempenhando um papel construtivo no que diz respeito à industrialização foi refutada em Kenzo Mohri, “Marx and ‘Underdevelopment,’”Monthly Review 30, no. 11 (April 1979): 32–42; and Suniti Kumar Ghosh, “Marx on India,” Monthly Review 35, no. 8 (January 1984): 39–53. Uma refutação mais recente, baseada em alguns novos materiais, é o Livro de Kevin Anderson, Marx at the Margins (Chicago: University of Chicago Press, 2016).
  20. Giovanni Arrighi, The Geometry of Imperialism (London: Verso, 1983), 171–73; Giovanni Arrighi, “Lineages of Empire,” in Debating Empire, ed. Gopal Balakrishnan (London: Verso, 2003), 35. Em The Long Twentieth Century, Arrighi dispensou inteiramente a análise do capital monopolista e do poder monopolista na evolução da empresa corporativa gigante moderna – abandonando assim o estágio de monopólio do capitalismo que Lênin havia identificado com o imperialismo – preferindo substituir a análise de custos de transação neoclássica como uma explicação adequada para o crescimento das empresas multinacionais. Giovanni Arrighi, The Long Twentieth Century (London: Verso, 1994), 218–19, 239–43.
  21. Michael Hardt and Antonio Negri, Empire (Cambridge, MA: Harvard University Press, 2000), 178, 234, 332–35; Thomas L. Friedman, The World Is Flat (New York: Farrar, Strauss, and Giroux, 2005); Francis Fukuyama, The End of History and the Last Man (New York: The Free Press, 1992).
  22. Ellen Meiksins Wood, “A Manifesto for Global Capitalism?,” in Debating Empire, 61–82; John Bellamy Foster, “Imperialism and ‘Empire,’” Monthly Review 53, no. 7 (December 2001): 1-9.
  23. Leo Panitch and Sam Gindin, The Making of Global Capitalism (London: Verso, 2013), 12, 26, 275; Tony Norfield, The City (London: Verso, 2017), 14–17; Peter Gowan, The Global Gamble (London: Verso, 1999), 19–38.
  24. William I. Robinson, A Theory of Global Capital (Baltimore: Johns Hopkins University Press, 2004), 44–49; John A. Hobson, Imperialism: A Study (London: James Nisbet and Company, 1902).
  25. William I. Robinson, Into the Tempest (Chicago: Haymarket, 2018), 99–121. Sobre as fraquezas empíricas da tese do capital transnacional, ver “Transnational Capitalism or Collective Imperialism,” Pambazuka News, March 23, 2011; Ha-Joon Chang, Things They Don’t Tell You About Capitalism (New York: Bloomsbury, 2010), 74–87; Ernesto Screpanti,Global Imperialism and the Great Crisis (New York: Monthly Review Press, 2014), 57–58.
  26. David Harvey, “A Commentary on A Theory of Imperialism,” in A Theory of Imperialism, Patnaik and Patnaik, 169, 171; David Harvey, “Realities on the Ground: David Harvey Replies to John Smith,” Review of African Political Economy blog, February 5, 2018; David Harvey, “Imperialism: Is It Still a Relevant Concept?,” (contribuição para a discussão sobre este tema apresentada no Center for Public Scholarship, New School for Social Research, New York, em 1º de Maio de 2017), disponível no YouTube. Em seus primeiros escritos, Harvey era bastante simpático à noção de imperialismo, como em seu artigo de 1975 “The Geography of Capital Accumulation,” reimpresso em David Harvey, Spaces of Capital (New York: Routledge, 2001), 260–61. See also David Harvey, The Limits to Capital (1982; repr., London: Verso, 2006), 439–42.
  27. David Harvey, The New Imperialism (Oxford: Oxford University Press, 2003), 7, 27, 163, 209–11; Harvey, “Imperialism: Is It Still a Relevant Concept?”
  28. Harvey, “Imperialism: Is It Still a Relevant Concept?”; Harvey, “A Commentary on A Theory of Imperialism,” 169.
  29. Harvey, “Realities on the Ground.”
  30. David Harvey, Seventeen Contradictions of Capitalism (Oxford: Oxford University Press, 2014), 135. Harvey diz que “busca de renda”, como usado por Joseph Stiglitz para se referir à tomada de riqueza em vez de sua criação, “não é nada mais do que uma forma educada e que parece neutra de se referir ao que chamo de ‘acumulação por desapropriação'” (Harvey, Seventeen Contradictions of Capitalism, 133). Pode-se dizer, por sua vez, que “acumulação por desapropriação” é apenas uma forma educada e um tanto neutra de se referir ao que Marx chamou de expropriação (ou lucro por expropriação).
  31. Karl Marx, Capital, vol. 1 (London: Penguin, 1976), 915. Sobre o conceito de Marx de “lucro por expropriação” (ou lucro sobre a alienação), ver John Bellamy Foster and Brett Clark, “The Expropriation of Nature,” Monthly Review 69, no. 10 (March 2018): 1–27.
  32. Marquess of Salisbury quoted in Paul A. Baran, The Political Economy of Growth (New York: Monthly Review Press, 1957), 145.
  33. Utsa Patnaik, “Revisiting the ‘Drain,’ or Transfers from India to Britain in the Context of Global Diffusion of Capitalism,” in Agrarian and Other Histories, ed. Shubhra Chakrabarti and Utsa Patnaik (New Delhi: Tulika, 2017), 311.
  34. Magdoff, Globalization, 4, 41.
  35. Atilio Borón, “Empire” and Imperialism (London: Zed, 2005), 3.
  36. Amin, Modern Imperialism, 162, 193–95.
  37. John Bellamy Foster and Robert W. McChesney, The Endless Crisis (New York: Monthly Review, 2012), 76–77.
  38. Intan Suwandi, R. Jamil Jonna, and John Bellamy Foster, “Global Commodity Chains and the New Imperialism,” Monthly Review 70, no. 10 (March 2019): 1–24.
  39. Sobre o exército global de reserva, ver Foster and McChesney, The Endless Crisis, 125-54.
  40. Tony Norfield, “T-Shirt Economics: Labour in the Imperialist World Economy,” in Struggle in a Time of Crisis, ed. Nicolas Pons-Vignon and Mbuso Nkosi (London: Pluto, 2015), 23–28; John Smith, Imperialism in the Twenty-First Century (New York: Monthly Review Press, 2016), 13–16.
  41. Suwandi, Jonna, and Foster, “Global Commodity Chains and the New Imperialism,” 14–15.
  42. Norfield, “T-Shirt Economics,” 25–26.
  43. Foster and McChesney, The Endless Crisis, 140–41.
  44. International Labour Organization, Table 4a. Employment by Aggregate Sector (by Sex), in Key Indicators of the Labour Market(KILM), 8th ed. (Geneva: International Labour Office, 2014); “Economic Groups and Composition,” United Nations Conference on Trade and Development, http://unctadstat.unctad.org.
  45. United Nations Conference on Trade and Development, “Non-Equity Modes of International Production and Development,” in World Investment Report, 2011 (Geneva: United Nations, 2011), 123, 132.
  46. Norfield, The City, 9, 169; Federal Reserve Bank of St. Louis Economic Research, FRED,Net Domestic Investment: Private: Domestic Business, accessed May 18, 2019; Stephanie E. Curcuru and Charles P. Thomas, “The Return on U.S. Direct Investment at Home and Abroad,” International Finance Discussion Papers, no. 1057, Board of Governors of the Federal Reserve System, October 2012.
  47. Paul A. Baran and Paul M. Sweezy, Monopoly Capital (New York: Monthly Review Press, 1966), 107–08.
  48. Dev Kar and Guttorm Schjelderup, Financial Flows and Tax Havens (London: Global Financial Integrity, Norwegian School of Economics, 2015), 19; Jason Hickel, The Divide (New York: W. W. Norton, 2017), 27.
  49. Karl Marx and Frederick Engels, Collected Works, vol. 30 (New York: International, 1975), 59.
  50. Norfield, The City, 76.
  51. Kar and Schjelderup, Financial Flows and Tax Havens, 15–17.
  52. Karl Marx, Capital, vol. 3 (London: Penguin, 1981), 345.
  53. Hickel, The Divide, 290–91.
  54. Gernot Köhler, “The Structure of Global Money and World Tables of Unequal Exchange,” Journal of World-System Research 4 (1998): 145–68; Gernot Köhler, Global Keynesianism: Unequal Exchange and Global Exploitation (New York: Nova Science, 2002), 43–100; Gernot Köhler, “Unequal Exchange 1965–1995,” November 1988; Hickel, The Divide, 290–91. Zak Cope, contando com várias maneiras diferentes de calcular a transferência de valor por meio do intercâmbio desigual, chegou a números de US$2,6 a US$4,9 trilhões em 2009, dependendo do método usado. Zak Cope, Divided World Divided Class (Montreal: Kersplebedeb, 2012), 262.
  55. Amin, Modern Imperialism, 223–25.
  56. John Smith, “Marx’s Capital and the Global Crisis,” in The Changing Face of Imperialism, ed. Sunanda Sen and Maria Cristina Marcuzzo (London: Routledge, 2018), 43-45; Imperialism in the Twenty-First Century, 252; Tony Norfield, “Imperialism, a Marxist Understanding,” Socialist Economist, March 22, 2019. On the wider issues of value capture, see Mariana Mazzucato, The Value of Everything (New York: PublicAffairs, 2018).
  57. O papel das “ilhas do tesouro”, principalmente no Caribe, destaca o enorme capital offshore em paraísos fiscais. Ver Nicholas Shaxson, Treasure Islands (New York: Palgrave-Macmillan, 2011). Thomas Piketty também destacou a crescente lacuna entre investimento/crescimento (o papel tradicional do capital) e a acumulação de riqueza. Thomas Piketty, Capital in the Twenty-First Century (Cambridge, MA: Harvard University Press, 2014).
  58. Amin, Modern Imperialism, 110–11.
  59. “The Military Cost of Defending the Global Oil Supply,” Securing America’s Future Energy, September 21, 2018.
  60. Norfield, The City, 123, 126.
  61. Sobre uma mudança para um imperialismo mais agressivo logo após o colapso da União Soviética, ver John Bellamy Foster, Naked Imperialism (New York: Monthly Review Press, 2006).
  62. Geoeconomia representa o renascimento da guerra econômica. Para a grande estratégia a esse respeito emanada do Counsil of Foreign Relations, ver Robert D. Blackwill and Jennifer M. Harris, War by Other Means (Cambridge, MA: Harvard University Press, 2016).
  63. Donald Trump, “President Trump Vows to Usher in Golden Era of American Energy Dominance,” June 30, 2017, http://whitehouse.gov.
  64. See John Bellamy Foster, Trump in the White House (New York: Monthly Review Press, 2017).
  65. Sobre a história do social imperialismo, see Bernard Semmel, Imperialism and Social Reform (Garden City, NY: Doubleday, 1960).
  66. Magdoff, Globalization, 4–5.
  67. Marx and Engels, Collected Works, vol. 1, 180.
  68. “Um movimento operário radical [no Norte] não pode se tornar uma realidade a menos que se oponha firmemente às guerras imperiais, à produção e venda de armas, à infiltração dos militares nas economias locais e na vida cotidiana, ao patriotismo de bandeiras e hinos nacionais, ao mantra que devemos todos apoiar as tropas. No Norte Global, o nacionalismo é uma doença que impede a solidariedade global da classe trabalhadora essencial para a libertação humana.”  Michael D. Yates, Can the Working Class Change the World? (New York: Monthly Review Press, 2018), 160.
  69. Karl Marx and Friedrich Engels, The Communist Manifesto (New York: Monthly Review Press, 1964), 7.

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