Fantasmas do Império: “O cinema colonial é património comum”

Por Mariana Carneiro. Originalmente em Esquerda.net

Ariel de Bigault coloca perante nós um século de imagens do colonialismo português. Somos confrontados com a ficção da propaganda, difundida pelos cineastas do regime, e a realidade da ocupação, da dominação e da guerra colonial. E os seus tabus.

O documentário Fantasmas do Império, de Ariel de Bigault (produção de Alexandre Oliveira, Ar de Filmes e coprodução de Kidam, Alexandre Perrier) estreou a 28 de agosto no IndieLisboa. Em declarações ao Público, a realizadora francesa foi perentória: “Não estou a fazer um filme de catedráticos nem para catedráticos.” O seu objetivo foi explorar “a maneira como o olhar português sobre as colónias foi mudando”.

“É uma evolução sensível ao longo de todo o filme: mesmo na propaganda o discurso evoluiu muito na forma de filmar, na presença do negro. Não há um monolitismo do pensamento salazarista sobre a colonização, é mais complexo do que isso, e nessa complexidade é que se vai construir a ficção que é o não-racismo português e a convivência pacífica [entre colonizadores e colonizados]. A colonização, em termos de imagens, foi uma ficção”, explicou.

Em Fantasmas do Império fazemos uma visita, guiada pelos atores Ângelo Torres, são-tomense, e Orlando Sérgio, angolano, a um século de imagens de dezenas de filmes oriundos do Arquivo Nacional de Imagens em Movimento, bem como de filmes pós coloniais.

Sete cineastas – Fernando Matos Silva, João Botelho, Margarida Cardoso, Hugo Vieira da Silva, Ivo M. Ferreira, Manuel Faria de Almeida e Joaquim Lopes Barbosa – são convocados a comentar a evolução do imaginário colonial no cinema português. O documentário conta ainda com a participação de José Manuel Costa, diretor da Cinemateca, e de Maria do Carmo Piçarra, professora e investigadora.

“O cinema tornou-se indispensável para a nossa memória”

Lisboa é o ponto de partida e o espaço (lindíssimo) da Cinemateca é um lugar recorrente no documentário de Ariel de Bigault. E é exatamente aqui, em conversa com o ator Ângelo Torres, que José Manuel Costa nos deixa uma ideia a reter.

“O cinema tornou-se indispensável para a nossa memória”. Com a sua difusão, as imagens “tornam-se memória coletiva”. E “o cinema colonial é património comum”, frisa o diretor da Cinemateca. José Manuel Costa considera que o cinema que se dedica a esta temática tem um papel fundamental para o povo português perceber o que é hoje. Bem como para os povos africanos que viveram sob o jugo colonial português, “que também devem olhar para isso, apropriando-se disso, fazendo a sua leitura sobre isso”.

“O cinema colonial é sempre um confronto de dois olhares. Mesmo que um dos olhares esteja completamente subjugado, ele está lá. Há um momento em que alguém, que foi apanhado pela câmara, olhou para a câmara e, de repente, num simples olhar, transmite um mundo que, aparentemente, na retórica do filme, está completamente esquecido ou está completamente subjugado. Nenhum realizador colonialista, por mais que queira fazer propaganda, consegue fazer um plano escondendo toda a realidade”, defende.

A ideia da importância da memória é transversal em Fantasmas do Império. Mas também o é a da existência de uma doença do silêncio, a que se refere o cineasta João Botelho: Esta “ideia de esquecer, meter debaixo da terra, não falar”.

Margarida Cardoso também fala nesse silêncio e na “dificuldade em aceitar que a memória faz parte da construção da nossa identidade”. “Se nós não sabemos como recordar as coisas também não sabemos muito bem quem é que somos”, assinala a realizadora.

No final do documentário, um desafio: “Como é que vamos aproveitar estas imagens?”, questiona Orlando Sérgio.

“Ver a versão do outro lado, a forma como somos retratados, podia criar a semente e a vontade de contarmos também a nossa versão. Quem sabe, com isso mudemos um pouco o nosso conhecer, a nossa mentalidade, a nossa forma de ver o nosso passado”, afirma o são-tomense Ângelo Torres.

Resgatar a memória, quebrar o silêncio, desconstruir mitos em torno da Guerra Colonial e do colonialismo português. Abrir caminho para que outras verdades trilhem caminho. Este é um legado inquestionável de Fantasmas do Império.

“Evangelizar e civilizar”: O salvo conduto para a usurpação, dominação, escravização

Ariel de Bigault invoca a ficção da propaganda, difundida pelos cineastas do regime em filmes como São Tomé, Agrícola e Industrial, 1923, de Augusto Seara; O Documentário da Viagem do Chefe do Estado às Colónias de Angola e São Tomé e Príncipe (1939), A Exposição do Mundo Português, Guiné, Berço do Império (1940), Angola, Nova Lusitânia (1944), Gente que Nós Civilizámos (1944), de António Lopes Ribeiro; Chaimite (1953), de Jorge Brum do Canto; Programa, Angola, Decisão de Continuar (1961); Angola na Guerra e no Progresso (1971), de Quirino Simões; O Zé do Burro (1972), de Eurico Ferreira; Africarama (1973), de Jean-Noel Pascal-Angot; Ritmos de Luanda (1971), de Jean Leduc; Angola, Terra do Passado e do Presente (1972), de António Escudeiro; Beira, Porta Turística de Moçambique (1973), de Miguel Spieguel.

Neles, ouvimos inúmeros discursos de Salazar, sobre como “algumas tribos que estavam há poucos anos insubmissas”, passaram a reconhecer “da forma exuberante que se vê, os benefícios da nossa ação civilizadora”. Sobre como “os indígenas aprendem a amar Portugal, a saber que têm uma pátria e a servi-la” e como “Angola é uma criação portuguesa e não existe sem Portugal”.

Os ataques da UPA (União dos Povos de Angola) são mobilizados para justificar o início da Guerra Colonial e o então ditador no poder anuncia que “andar rapidamente e em força é o objetivo que vai pôr à prova a nossa capacidade de decisão”.

É-nos dito algo que já sabemos, mas que muitos fingem não saber: que “um dos símbolos mais grandiosos” do colonialismo “era, sem dúvida, o monumento ao Infante D. Henrique, autêntico padrão erguido ao génio da raça”. E as palavras “Pátria”, “soberania”, “civilizar”, “evangelizar” repetem-se.

As imagens encenadas, ao limite do ridículo, pretendem retratar a ação civilizadora dos colonizadores portugueses.

Em voz-off, o narrador cita o Estatuto político, civil e criminal dos indígenas de Angola e Moçambique e o Ato Colonial.

“Estatuto político, civil e criminal dos indígenas de Angola e Moçambique – 23 de outubro de 1926

A Governação Ultramarina de Portugal obedeceu historicamente à norma cristã humanitária e patriótica de manter e civilizar as populações indígenas do nosso vasto domínio colonial e de as incorporar fraternalmente no organismo político, social e económico da Nação Portuguesa. Aos indígenas, é garantida a liberdade nos contratos de prestação de serviços, a autoridade assegurará a validade e a execução desses contratos. O trabalho compelido só é permitido quando absolutamente indispensável, em serviços de interesse público, de urgência inadiável. Este trabalho será remunerado conforme as circunstâncias. Não serão concedidos aos indígenas direitos políticos em relação às instituições de caráter europeu.

Ato Colonial, promulgado a 8 de julho de 1930 por António Oliveira Salazar, então ministro das Colónias. Integrado na Constituição de 1933 pelo presidente António Carmona

É da essência orgânica da nação portuguesa desempenhar a função histórica de possuir e colonizar domínios ultramarinos e de civilizar as populações indígenas que neles se compreendam, exercendo também a influência moral que lhe é adstrita pelo Padroado do Oriente. Os domínios ultramarinos de Portugal denominam-se colónias e constituem o Império Colonial Português.”

Do período colonial ficamos ainda a conhecer duas obras alvo da Censura: Catembe (1965), de Manuel Faria de Almeida, com várias cenas cortadas, e Deixem-me ao Menos subir às Palmeiras (1972), de Joaquim Lopes Barbosa, uma adaptação do livro Dina/Nós Matamos o Cão Tinhoso, de Luís Bernardo Honwana, proibido pela Censura.

O trabalho forçado, os massacres. O som da guerra

As imagens dos filmes do período colonial são entremeadas com imagens de filmes de cineastas contemporâneos.

Acto dos feitos da Guiné (1980), de Fernando Matos Silva; Um Adeus Português (1986), de João Botelho; Non, ou a vã glória de mandar (1990), de Manoel de Oliveira; Natal 71 (1999), A Costa dos Murmúrios (2004), Yvone Kane (2014), de Margarida Cardoso; Tabu (2012), de Miguel Gomes; Posto avançado do progresso (2016), de Hugo Vieira da Silva; Cartas da Guerra (2016), de Ivo M. Ferreira; Peregrinação (2017), de João Botelho; são alguns dos filmes que visitamos.

Com eles, chega-nos a ocupação e a exploração do outro, o trabalho forçado, os massacres, as verdadeiras consequências daquela que foi a presença do homem branco em África. A poesia de Namibiano Ferreira.

Na baixa de Kassange…
Houve um tempo
na baixa de Kassange
em que o algodão branco
era roxo de fome e de sangue...
houve um tempo

de morte e revolta
na Baixa de Kassanje
as lavras
- dizem os mais-velhos
cheiravam a kimbos queimados
e napalm….

Por Namibiano Ferreira.

E o “som da Guerra”, os estilhaços, o trauma, de uma geração portuguesa. Somos confrontados com “as ondas da violência da guerra que chegam com os homens e atingem as mulheres”. A hierarquia religiosa aparece ao lado dos senhores da guerra.

Aqui, ouvimos a música de Gouveia Ferreira e de Luís Cília.

Taberna do diabo, de Gouveia Ferreira

Um dia fui dar com Deus
na taberna do Diabo
Entre cristãos e ateus
fizeram de mim soldado

E eu sem querer fui embarcado
Levei armas e um galão
Pr’ò outro lado do mar
Quis levar o coração
Não mo deixaram levar

E eu sem querer ia matar
E eu sem querer ia matar

Deram-me uma cruz de guerra
quando matei meu irmão
e a gente da minha terra
promoveu-me a capitão

E eu sem querer fiquei papão
E eu sem querer fiquei papão

Todos me chamam herói
Ninguém me chama Manel

Quem quer uma cruz de guerra
Que eu já não vou prò quartel

Que eu já não vou prò quartel
Que eu já não vou prò quartel

Canto do Desertor, de Luís Cília

Oh mar… oh mar…
Que beijas a terra,
Vai dizer à minha mãe
Que não vou p`rá guerra.

Diz, oh mar, à minha mãe,
Que matar não me apraz
No fundo quem vai à guerra
É aquele que a não faz.

Vou cantar a Liberdade,
Para a minha Pátria amada,
E para a Mãe negra e triste
Que vive acorrentada.

Mas a voz do nosso povo,
No dia do julgamento,
Te dirá a ti, oh mar.
E dirá de vento a vento,

Quem são os traidores,
Se é quem nos rouba o pão
Ou se nós os desertores
Que à guerra dizemos «Não».

Chega-nos, por outro lado, a Luta de Libertação Nacional, a proclamação da independência da Guiné-Bissau, a 24 de setembro de 1973, o Fim do Império. E o 25 de Abril!

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