Polícia, dominação de classe e o seu caráter irreformável

Por Arthur Moura

“A polícia é órgão imprescindível no controle das massas, sobretudo quando estas passam do estágio de meras reivindicações às ações pautadas na organização dos trabalhadores com o objetivo central de retomar o controle da produção ou simplesmente de construir algum tipo de autonomia independente do Estado e sua burocracia ou das relações de mercado.”


O capitalismo é um sistema que organiza os seres humanos submetendo-os a uma determinada lógica de produção o que acaba por gerar uma forma específica de sociabilidade onde existe uma divisão social do trabalho havendo os que detêm o monopólio dos meios de produção, portanto, comandam e os comandados que possuem apenas sua força de trabalho que é explorada para a produção de mercadorias naturalizando as relações de subalternização dentro de um sistema que apesar disso promete certa mobilidade social o que é absolutamente falso se pensarmos a nível estrutural da sociedade, pois sua natureza é hierárquica e objetiva a dominação de forma direta e indireta. Essa dominação é uma dominação de classe apesar de também agir sobre indivíduos e grupos. Este sistema, por sua vez, a partir da produção incessante de mercadorias obtém o lucro por meio não outro que a exploração da força de trabalho que participa dessa produção como mais uma mercadoria garantindo a reprodução do capital e a alienação do trabalhador.

Este sistema exclui o trabalhador (que é o verdadeiro responsável pela produção de tudo que existe no meio social) de qualquer interferência na lógica da produção e distribuição das riquezas geradas servindo apenas como força necessária ao funcionamento das relações mercantis. A produção e a infra-estrutura existente ainda que produzido coletivamente é apropriado e distribuído de forma desequilibrada concentrando muito nas mãos de poucos gerando notória desigualdade social. Tais relações geram consequentemente uma série de revoltas que de tempos em tempos pode emergir ao patamar de verdadeiras revoluções. Para que toda essa desigualdade continue existindo e para que a população não avance nas lutas contra o capitalismo é necessário um conjunto de forças coercivas que contenham os distúrbios sociais causados pela dominação de classe. Antes da dominação pelas armas a jurisdição burguesa, não menos autoritária, exerce o papel da dominação formal. Segundo Pedroso (2005:49),

“A mentalidade autoritária no Brasil teve como pressupostos básicos o modelo jurídico, o poder centralizado e elitizado e a organização das forças policiais que se incumbiram de perseguir as camadas sociais desprivilegiadas. Ordem pública e segurança interna encontram-se na raiz da construção da ideologia de Estado.”

A repressão estatal, portanto, obedece a uma cadeia de poderes que visa manter o funcionamento pleno do capitalismo e da dominação de classe que se materializa em diversos campos como a repressão, a jurisdição, a burocracia, a ideologia, a religião, etc. Sobre isso, em Estado e Forma Política, Alysson Mascaro diz o seguinte:

“A característica tipicamente atribuída aos Estados, de repressão, como instrumento negativo, realizando a obstacularização das condutas, é definidora mas não exclusiva do aparato político moderno. A repressão, que é um momento decisivo da natureza estatal, deve ser compreendida em articulação com o espaço de afirmação que o Estado engendra no bojo da própria dinâmica de reprodução do capitalismo.”

Neste sentido, a força policial é a última forma de controle social dos Estados modernos. Antes do uso direto da violência contra a população civil há toda uma mecânica capaz de ajustar os indivíduos aos objetivos da reprodução das relações sociais pautadas basicamente no trabalho alienado de forma a garantir o bom funcionamento das redes de mercado, das burocracias, em suma, das relações de poder e dominação. O uso quase trivial da violência gera imensos desgastes ao Estado havendo iminência de convulsão social que acaba por comprometer a fina capa do estado democrático de direitos já que as formalidades jurídicas são suprimidas resultando em estado de exceção permanente onde o que vale é a força bruta.

O Estado então precisa justificar o uso da violência e para isso constrói seus discursos que basicamente se resume em garantir a manutenção da ordem pública quando na verdade a polícia existe para defender os interesses da classe dominante já que seu inimigo é o pobre. Segundo Pedroso (2005:53),

“A representação deste mundo da desordem foi sendo construída no imaginário coletivo desde o final do século XIX e, nada mais era, que o oposto ao mundo do trabalho. Representava, dessa forma, o elemento fundamental para a manutenção do modelo social. A existência do crime, da vagabundagem e da ociosidade justificava o discurso de exclusão e perseguição policial às camadas populares pobres e despossuídas. Assim, a segurança pública terminava por ditar a racionalidade do sistema. A polícia, além de enfrentar a desordem, limitando e circunscrevendo as camadas populares a certos espaços públicos, também era incumbida diretamente da moralização das massas.”

A polícia é um órgão de classe, que responde aos anseios e necessidades da classe dominante. Diferente do que a corporação prega, ela não serve ao interesse geral reproduzido no slogan “servir e proteger”. A polícia surge no início do século XIX na Inglaterra e França para lidar diretamente com as massas. O fato de ser o exército o responsável em conter as massas reivindicantes, acabava por produzir verdadeiros massacres com alto índice de mortalidade entre trabalhadores que lutavam por melhores condições de vida. O assassinato direto de trabalhadores gerava mártires e ao invés de conter a população inflamava ainda mais os ânimos tendo o perigo do descontrole por parte do Estado. A polícia surge como força não-letal, capaz de conter e dispersar as massas. Seu surgimento, como afirma David Whitehouse, “não foi uma resposta ao aumento dos delitos e na realidade não supunha novos métodos para tratar de fazer frente ao crime.” David explica que a delação era a maneira que as autoridades encontravam para resolver os crimes. A polícia especializou-se em impedir que as manifestações populares pudessem fazer frente ao Estado burguês a ponto de materializar suas reivindicações, como a redução da jornada de trabalho, etc.

A polícia é órgão imprescindível no controle das massas, sobretudo quando estas passam do estágio de meras reivindicações às ações pautadas na organização dos trabalhadores com o objetivo central de retomar o controle da produção ou simplesmente de construir algum tipo de autonomia independente do Estado e sua burocracia ou das relações de mercado. Neste ponto, a polícia, seja ela militar, federal ou civil, age conjuntamente impedindo, por meio não outro que a criminalização, tortura e assassinatos, a organização popular.

No Brasil, segundo Pedroso(2005:48),

“A composição das polícias foi articulada prioritariamente de forma a conter a desordem e a imoralidade que assolavam as cidades brasileiras, principalmente a capital federal. Por outro lado, procurou-se também conter todo e qualquer tipo de distúrbio de origem político-social que viesse a desestabilizar o poder no estados brasileiros.”

E continua:

“A construção do Estado-Nação no Brasil seguiu os pressupostos básicos do autoritarismo que, a partir de estratégias de ordenação, racionalização e exclusão, edificou um modelo dominador e agregador das tensões sociais. A institucionalização de mecanismos repressivos sobre as camadas excluídas também é de longa data no Brasil. Prisões arbitrárias, violência policial, torturas, raptos, descasos, perseguições e deportações representam nitidamente o poder de Estado sobre a população marginalizada. Em que medida as mudanças dos regimes políticos no Brasil alteraram a atuação das corporações policiais? A polícia, em algum momento da História, atuou em prol das populações mais carente com o objetivo de garantir-lhes o mínimo dos seus direitos de cidadania? “

Apesar do livro da professora Regina[1] ser esclarecedor em diversos aspectos, a análise acaba fazendo uso de categorias abstratas como a cidadania, que é entendida dentro do universo burguês do Estado democrático de direitos que confere deveres e direitos a população circunscrita numa jurisdição que não tem outra função além de formalizar a dominação de classe, sendo, portanto, categoria esta meramente formal. Se se é um “cidadão” rico, a polícia destinará a este segmento um tratamento específico e diferenciado. Caso o “cidadão” seja um sujeito fora desse restrito nicho, toda a formalidade jurídica simplesmente desaparece sendo a força substituída por qualquer forma de diálogo. Por isso, a polícia jamais poderia defender os interesses dos mais carentes socialmente a fim de garantir-lhes direitos supostamente presentes na constituição burguesa. A categoria de cidadania, grosso modo, atrapalha no entendimento correto que o trabalhador deve ter sobre as forças de repressão, visto que se produz uma expectativa de que dependendo do treinamento dos agentes e da estrutura uma nova polícia poderia surgir para equalizar as graves diferenças sociais.

Numa sociedade cindida entre classes antagônicas, o discurso de que a polícia, os exércitos e guardas servem ao interesse geral funciona apenas como artifício que busca legitimar a permanência e legitimidade de tais forças, criando artificialmente a ideia da imprescindibilidade da repressão como garantia da ordem pública. No entanto, na prática a letalidade da polícia é exclusivamente direcionada a um determinado segmento da população com um recorte de classe e notadamente de raça. O racismo contra os negros , segundo David Whitehouse, esteve presente na polícia norte-americana desde seu primeiro dia. A juventude negra periférica é o público-alvo preferencial da polícia militar. O que aparentemente reflete um despreparo é na verdade o objetivo e a função histórica da polícia, instrumento político da classe dominante. A função social da polícia está diretamente ligada à manutenção do status quo. França [2](2017), faz importante menção à fala de um Tenente-Coronel da Rota:

“No ano de 2017, ao assumir o comando das Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar, mais popularmente conhecida por ROTA, um Tenente-Coronel da PMESP afirmou em entrevista que os policiais devem atuar de forma diferente nas áreas consideradas nobres e nas periferias da capital paulista. A ROTA, que é uma tropa de elite da Polícia Militar do Estado de São Paulo, também é conhecida pelo grau de violência e letalidade de seus policiais. Segundo as palavras do comandante, “É uma outra realidade. São pessoas diferentes que transitam por lá. A forma dele (policial) abordar tem que ser diferente. Se ele for abordar uma pessoa (na periferia) da mesma forma que ele for abordar uma pessoa aqui nos Jardins, ele vai ter dificuldade”. Além disso, o Tenente-Coronel ainda acrescentou que o PM deve adaptar-se ao meio no qual ele está inserido no momento de sua atuação de forma que ele não pode ser “grosseiro com uma pessoa do Jardins que está ali, andando”.

Levando-se em consideração o que foi dito na entrevista concedida pelo comandante da ROTA paulista, não podemos fugir do argumento de que, em sua gênese, até os dias atuais, as PMs, em todo o Brasil, sempre atuaram para proteger as elites e classes dominantes por meio do exercício da violência e da arbitrariedade especialmente contra as populações pobres e desfavorecidas das cidades e zonas rurais. Essa constatação nos coloca diante da visão marxisto-althusseriana de que, enquanto “aparelhos repressivos de Estado”, as forças policiais militares no Brasil atuam para proteger o capital privado dos grandes empresários e latifundiários, além da proteção dos privilégios de profissionais liberais, funcionários públicos como magistrados e políticos que conformam as elites que comandam nosso país. Esse protecionismo, historicamente falando, teve sua origem com o modelo de policiamento moderno surgido na Europa e herdado pelo Brasil.

Essa orientação, como vimos anteriormente, é histórica. A polícia militar é uma corporação altamente racista e prega aquilo que aprendeu historicamente. Cada vez mais poder vem sendo dado aos militares. O governo Bolsonaro acentuou ainda mais a repressão direcionando-a com ainda mais precisão a neutralização dos inimigos e possíveis inimigos. Bolsonaro impõem o medo na busca por uma dominação sem grandes resistências, pois a todo momento é externado as intenções e poder coercivo a seu dispor.

A impressionante letalidade da Polícia Militar denuncia o que alguns podem chamar de “descontrole” das forças repressivas. No entanto, se avaliarmos o contexto sócio-histórico atual perceberemos que o uso da força repressiva obedece a um projeto de sociedade e poder respondendo aos anseios de uma parte considerável da população que clama cada vez mais por segurança e vê nas forças do Estado a única saída para a garantia dos seus interesses. Por outro lado, uma parcela ainda maior sofre com essa violência. O maciço investimento nas polícias e exércitos contrasta com o pífio investimento em setores fundamentais que vêm sofrendo cortes brutais. A ideia que se quer passar é a existência de um perigo iminente sendo a única garantia de resguardo da população as forças repressivas. A ameaça, segundo essa perspectiva, é tanto interna como externa. Por conta de interesses econômicos principalmente em torno de riquezas naturais como o petróleo, minérios e outras reservas, a economia capitalista busca recuperar-se produzindo conflitos numa suposta defesa da vida democrática acusando governos locais de serem ditatoriais neste caso sempre atrelando a este autoritarismo ao famigerado projeto totalitário comunista, mesmo o comunismo não tendo qualquer expressividade real como força popular muito menos entre governos.

Por outro lado, no que diz respeito à ameaça interna o combate ao inimigo é não outro que os movimentos populares ou simplesmente a ameaça de eclosão de focos de setores de trabalhadores que ainda reivindicam direitos dentro dos limites da legalidade burguesa. Mesmo as lutas sociais não transcendendo qualquer excesso fora dos parâmetros legais, a criminalização (que é antecedida por cortes que geram a precarização de milhares de trabalhadores), é o artifício criado pelo Estado como forma de estancar essas lutas sociais desviando o foco da crise para os distúrbios sociais gerados pelas lutas. A ameaça comunista também é vista como um perigo interno sendo essa a justificativa para o desmonte da educação pública colocando em seu lugar um tipo de revisionismo com viés nitidamente fascista.

Isso coloca a repressão como necessidade à reorganização do corpo social construindo inimigos que o Estado historicamente explorou como justificativa aos seus atos. Neste caso, a mentalidade do policial é reprogramada a agir como historicamente lhe foi determinado. O inimigo do policial é a suposta degenerescência moral incorporada em sujeitos históricos que buscam romper com os pressupostos e valores da razão instrumental da burguesia. São inimigos da polícia os moradores e artistas de rua, professores e intelectuais de esquerda, estudantes, sindicalistas, trabalhadores autônomos, feministas, anarquistas, jornalistas e comunicadores que denunciam este estado de coisas. A Polícia, seja militar, civil ou federal, é a que executa o trabalho sujo de limpeza social e tudo isso em nome da lei.

A legalidade não é nem nunca foi o parâmetro ou critério para o uso das forças armadas contra as populações. A polícia age, sobretudo, contra a legalidade burguesa (mas não contra a burguesia) garantindo a permanência do estado de exceção. Uma coisa é a lei, outra coisa é o que a polícia faz, afirma David Whitehouse em As Origens da Polícia. O uso da polícia obedece a um determinado conjunto de interesses econômicos e políticos que geralmente atende à garantia intocável da dominação burguesa que sacraliza a propriedade privada legitimando o monopólio dos meios de produção. A jurisdição existe para corroborar e organizar este funcionamento isentando a polícia de qualquer punição severa. Sobre a lei, David afirma o seguinte:

“Primeiro, algumas palavras sobre a lei. Apesar do que possamos ter aprendido em sala de aula, a lei não é o marco no qual opera a sociedade. A lei é o resultado de como a sociedade funciona, mas não nos diz como as coisas realmente funcionam. A lei tampouco é o marco em que a sociedade deveria funcionar, embora alguns tenham essa esperança. A lei é, na verdade, uma ferramenta nas mãos daqueles que têm o poder de usá-la, para alterar o curso dos acontecimentos. As corporações são capazes de usar essa ferramenta porque podem contratar advogados caros. Políticos, promotores e policiais também podem usar a lei. A lei trata de crimes, e são indivíduos que são acusados de crimes. Mas na verdade a polícia foi inventada para lidar com o que os trabalhadores e os pobres podem vir a se transformar em suas expressões coletivas: a polícia lida com multidões, bairros, selecionando partes da população – todas entidades coletivas. (As Origens da Polícia. Passapalavra)”

As Jornadas de Junho de 2013, por exemplo, só foi completamente dissolvida devido ao trabalho de inteligência policial de sabotar as massas, produzindo o terror no interior das manifestações a ponto de gerar o completo caos entre manifestantes, reportado em mídias burguesas como algo da ordem da barbárie, sendo necessário o pulso firme do Estado para conter as massas. O trabalho das forças armadas e da inteligência do Estado foram imprescindíveis. Todo o conjunto das polícias foram absolutamente necessários para criminalizar e conter as manifestações populares. O medo da violência também foi fator decisivo para o esvaziamento das manifestações que passou a ter cada vez menos gente abrindo caminhos para a apropriação da extrema-direita que formou o MBL por meio de financiamento empresarial como a FIESP. As ações criminosas da polícia não deixam dúvida sobre a natureza terrorífica do Estado, que possui no seu interior um setor específico de agitação política. São homens treinados a gerar determinadas conturbações em ações não previstas entre os próprios manifestantes de forma a responsabilizá-los por prejuízos causados pela violência das massas basicamente contra símbolos do capital ou estabelecimentos como a loja da Toulon no Leblon como meio de propagar a revolta popular e a luta social. 2013 foi um ano importante para comprovar o antagonismo de classe entre a polícia e manifestantes que desejavam uma mudança radical no sistema econômico e político.

A dinâmica política hodierna, que não escapa a estes pressupostos, é conflitante produzindo diversas formas de terror o que deve ser justificado como forma de construir meticulosamente a tolerância aos modos sistemáticos da opressão capitalista. As justificativas se alçam à condição de verdade da mesma forma truculenta que a prática da violência policial cotidiana que visa conter os movimentos dissidentes externalizando ao mesmo tempo a sua natureza de classe com sua incapacidade de agir de maneira distinta num esforço discursivo legalista resguardando o Estado como mantenedor da ordem. Neste sentido cabe à polícia garantir a ordem da sociedade mercantil burguesa. Se pudéssemos elencar um dos pilares centrais das forças de repressão, esta seria a manutenção da propriedade privada e dos meios de produção nas mãos da burguesia, historicamente a classe que comanda o processo produtivo.

A brutal violência policial mesmo tendo chegado a níveis alarmantes não cessa a prática coercitiva contra os pobres. Na verdade o que ocorre é a intensificação da brutalidade policial sendo qualquer ação contrária a tais práticas considerada como crime, por isso passível de punição severa pela ordem pública. A polícia age obedecendo a uma razão de Estado e justifica toda e qualquer ação utilizando diversos meios e mecanismos para isso. Justificar o injustificável é a prática mais nefasta e abominável da reação burguesa. A polícia ao passo que comete crimes que transgridem a própria legalidade burguesa é alçada à condição de defensora incondicional da ordem pública, da moral e dos bons costumes, o que acaba gerando um cenário conflitivo para a própria corporação que precisa da legitimidade social para continuar existindo. A legitimidade da polícia é um trabalho importante para as elites que precisam da força repressiva para conter distúrbios sociais causados pela trágica história da dominação burguesa no Brasil ancorada no capitalismo como sistema sócio-econômico. A justificativa social para as ações policiais ainda que claramente inspiradas no terror, funciona como importante mecanismo de contenção e controle social.

A demonstração da força policial em ações repressivas contra aquilo que o Estado considera como criminalidade é o recado direto do preço a ser pago no caso de se enfrentar tais forças e a prática cotidiana policial é aberrante quando pensamos sua relação com os “cidadãos”. A internet, TV´s e outros aparatos de comunicação são habilmente utilizados nessa manobra de amortecer as lutas que acaba por consolidar o poder policial como força inquestionável, portanto imbatível, mas nem por isso insuperável. Uma rápida conclusão neste sentido é que nenhum argumento é capaz de impedir o genocídio produzido pela polícia. A única forma de impedir o avanço do genocídio é enfrentando as forças de repressão por meios violentos. Com o agravamento da crise estrutural do capital o resultado, já comprovadamente exposto por diversos meios, é a intensificação da barbárie policial até que se concretize o estágio de ditadura explícita contra determinados setores da população. E é este o caminho que pouco a pouco é trilhado. E, obviamente, a polícia não combaterá ela mesma sendo esta tarefa unicamente dos trabalhadores organizados. Neste sentido, é importante discutirmos o papel da “polícia antifascista” que também contribui para a alienação da luta pela emancipação dos trabalhadores.

Devido à sua natureza de classe, a polícia é uma estrutura irreformável e enquanto existir servirá como força de controle social garantindo a manutenção da dominação de classe. Em outras palavras, mesmo diante de todas as adversidades a polícia lutará até o último homem na defesa intransigente dos seus pressupostos, convictos de que estão fazendo o “bem”. A liberdade e a emancipação humana, portanto, só é possível por meio do enfrentamento deste inimigo histórico. Toda forma de manutenção das forças policiais ou legitimação das mesmas é prejudicial ao trabalhador e determinante na sua submissão social. O policial “antifascista” é o mais perigoso de todos os policiais. A primeira vista ele surge como um aliado. Infiltra-se nos movimentos sociais e luta por pautas muito próximas aos trabalhadores de diversos setores. Isso produz uma relação entre setores antagônicos, setores estes que sempre se enfrentaram em lutas campais. A polícia civil, que é a que geralmente encampa o antifascismo, é uma força igualmente reacionária e genocida atuando conjuntamente com as demais forças repressivas e seu papel histórico está ligado diretamente no controle social dos pobres e trabalhadores. O seu apreço pela constitucionalidade tem relação com necessidades particulares deste setor. A “luta pela democracia” forma uma espécie de cortina de fumaça, confundindo todos numa suposta totalidade apagando forçosamente as contradições de classe entre trabalhadores e policiais.

O antifascismo corporativo dos policiais coopta e ressignifica o sentido da luta operária adaptando as lutas por lutas por direitos na busca e defesa republicana do estado democrático e da manutenção da democracia representativa burguesa. A função da polícia antifascista continua sendo a manutenção do Estado como única forma de funcionamento das relações sociais por meio não outro que a dominação direta. Essa pauta formalizada funciona como repressão informal aos objetivos históricos da classe trabalhadora. Do ponto de vista da emancipação humana, não se trata de lutar por um Estado que defenda os interesses da população e sim na superação da forma-Estado já que na prática é impossível que qualquer Estado defenda os interesses dos trabalhadores. Tal objetivo é reprimido pelo movimento dos policiais antifascistas, pois do ponto de vista dos seus interesses o fim do Estado significa o fim da polícia e obviamente que os policiais antifascistas não querem perder seus empregos. A luta pela manutenção dos seus empregos é a luta formal contra a própria organização operária. No entanto, há quem capitalize com as pautas deste setor apaziguando os antagonismos históricos levando a luta ao parlamento burguês. Este setor são os partidos políticos de esquerda que são máquinas que impedem a radicalização das lutas populares.

A atuação dos partidos gira em torno de tragar lutas reivindicativas às formalidades jurídicas do ordenamento mercantil burguês justificando tais atos como um processo paulatino e necessário de avanço nas conquistas dos trabalhadores. A união entre policiais e trabalhadores a partir dessa noção torna-se algo aceitável e até necessário, pois há um somatório de forças que reforçam a necessidade por determinadas mudanças que serão a partir disso representadas pelos representantes políticos eleitos democraticamente num processo historicamente fraudado.

Ao tratar o tema da violência estrutural de Estado enviesado por um olhar que vê saídas dentro da própria manutenção do Estado e suas formas de poder e domínio deixamos de pensar o caráter da violência produzido pelas forças repressivas e a função social dos agentes de segurança, corporações e demais setores que garantem a contenção da pobreza e fundamentalmente impede através do aparato repressivo (mas não só pois a economia é fator fundamental nas relações de domínio) o avanço de formas organizacionais que coloque em questão a miséria estrutural causada pelo capitalismo e consequentemente pelo Estado em favor de uma disputa política sobre as forças armadas por parte de setores institucionais. Deixamos de pensar a violência estrutural de Estado não só como elemento de repressão direta contra a vida através das armas, mas, sobretudo, através da economia e da organização social como tal aperfeiçoando as formas de matar populações subalternas e segmentos divergentes. E por fim deixamos também de observar que a violência estrutural é atemporal e existe como condição sine qua non aos Estados-nação.

Em outras palavras, as supostas saídas levadas a cabo pela esquerda parlamentar (que na prática, como veremos, ao longo do tempo passou a diferenciar-se muito pouco da convencional direita conservadora e demais setores institucionais) no jogo eleitoral da democracia representativa nos levam a crer que medidas como a desmilitarização forçam caminhos de fato democráticos fundando o que seria uma polícia cidadã, ou seja, uma polícia que cumpra a jurisdição em práticas de respeito aos demais não tendo mais nos segmentos reprimidos, nesse caso as classes pauperizadas, um inimigo público. O modelo atual, segundo a crítica comum da esquerda institucional e o conjunto de intelectuais que reforçam tais ideias, caracteriza-se por uma omissão do Estado com relação a sua função de proteger o cidadão que consequentemente tornam-se reféns da ausência do poder público em sua obrigação de defesa dos mesmos.

A polícia cidadã reformada guiada pelos limites do Estado democrático e sua jurisdição burguesa ao fim do seu processo de reforma estará ainda mais preparada para atuar na repressão contra seu inimigo histórico – ainda que alguns poucos agentes ou parlamentares a princípio sejam contra este tipo de prática. A polícia continuará servindo aos empresários, patrões, chefes de Estado, aos grandes traficantes, enfim, aos carrascos de sempre. O inimigo da polícia reformada continuará sendo todo e qualquer segmento que coloque em questão o caráter sagrado da propriedade privada, o funcionamento das redes de mercado e a consequente acumulação de lucros e o funcionamento da democracia representativa burguesa. Pensar que a corrupção, ou a suposta falta de preparo de ambas polícias, civil, militar ou federal, ou seus baixos soldos ou a ação fora da legalidade é o grande mal das forças armadas é ignorar a sua função social no regime capitalista. A corrupção, a extorsão, a tortura e a ameaça, por exemplo, são elementos próprios e constitutivos das forças armadas sem os quais as polícias sequer funcionariam de acordo com seus objetivos. Por isso é preciso problematizar o discurso que afirma ser a polícia despreparada mesmo ela agindo minuciosamente na neutralização do seu inimigo. A ideia do despreparo serve como um filtro que blinda as corporações de suas responsabilidades e intenções visto que suas ações são estrategicamente formatadas no sentido de tomar territórios garantindo a hegemonia do Estado em relações econômicas legais ou ilegais. Em verdade, diz Geroge Oliven,

“a violência e a tortura com que a polícia tem tradicionalmente tratado as classes populares, longe de se constituírem numa “distorção” devido ao “despreparo” do aparelho de repressão, “têm uma função eminentemente política – no sentido de contribuir para preservar a hegemonia das classes dominantes e assegurar a participação ilusória das classes médias nos ganhos da organização política baseada nessa repressão. O exercício continuado dessa repressão ilegítima consolida as imagens de segurança de status social das classes médias diante da permanente ‘ameaça’ que constitui para elas qualquer ampliação das pautas de participação popular.”

O aumento da violência que, segundo Ruben Oliven em seu livro “Violência e Cultura no Brasil” (1982), se agravou sobretudo a partir do período de “abertura”, está intimamente ligado ao processo de aceleração e acumulação de capital em associação com interesses estrangeiros na construção do projeto moderno de sociedade. Dentro disso, o autor sugere que até mesmo termos como ‘violência urbana’ (normalmente relacionada diretamente a delinquência de classe baixa) serve como mecanismo de ocultação de um problema estrutural pois com o uso deste termo tem-se a ideia de que existe uma violência inerente às cidades, qualquer que seja. No entanto,

“a cidade, obviamente, não é a causa per se da violência, e por isto talvez devêssemos falar em violência na cidade em vez de violência urbana, já que este último termo implica aceitar que existe uma violência que é específica da cidade, quando, na verdade, esta é apenas o contexto no qual a violência se manifesta. (GEORGE, R. Violência e Cultura no Brasil. Pag. 22)”

Dentro de toda essa problemática a reforma além de inócua para a emancipação do trabalhador produzirá o efeito de melhor adaptar e capacitar a função da polícia em tempos futuros. Hoje a dificuldade de encobrir e justificar torturas, sequestros, assassinatos e demais práticas comuns das polícias ganha certa dificuldade, pois além de rotineira tais práticas são numerosas e normalmente ocorre a luz do dia sem qualquer pudor ou precaução mais minuciosa sendo necessário a intervenção direta da mídia corporativa como meio de convencimento. Ainda sobre a questão da reforma diz Nildo Viana:

“De nada adianta apresentar propostas como o aumento dos salários, a melhoria das “condições de trabalho”, implementação da pena de morte, etc., pois o aumento de salário nunca levará os agentes policiais ao cume da pirâmide social; a melhoria das “condições de trabalho” significa melhoramento nos meios de repressão que, certamente continuarão, em muitos casos, sendo usados de forma contrária ao que se propõe e também para fins político-repressivos; a pena de morte não significa combate à criminalidade e sim aos criminosos. As duas primeiras medidas podem ser implementadas, e, no caso da primeira, é bastante importante, pois pode contribuir com a diminuição da corrupção no sistema policial. Entretanto, essas reformas não são suficientes para resolver o problema da violência policial e/ou o problema da criminalidade. Isto ocorre porque tais reformas não chegam até as raízes da violência policial, pois a questão policial é uma questão social. (VIANA, N. As raízes da violência policial)”

Ainda que incrivelmente seus agentes fiquem absolutamente impunes e continuem a exercer suas funções de poder (quando muito passam a exercer funções burocráticas na corporação) as revoltas e as informações sobre tais práticas estimulam a crescente necessidade de uma autodefesa dos trabalhadores, questão essa intocada pelo reformismo já que isso enseja práticas ilegais por parte da classe trabalhadora evitando as orientações reformistas ou legalistas. Para entender melhor essa questão é preciso expor alguns argumentos que vão no sentido da reforma da polícia militar e consequentemente da polícia civil como setores da segurança pública que devem se fundir num outro programa de segurança segundo seus autores mais humano, democrático e que sirva a toda população. Para tal utilizaremos como exemplo o livro publicado pela Carta Maior “Bala Perdida, a violência policial no Brasil e os desafios para sua superação” (2015) por ser um veículo de esquerda que apresenta críticas ao modelo atual da polícia militar e da violência na cidade trazendo propostas desse setor institucional que combate a violência policial e tenta entender suas causas. Essa esquerda caracteriza-se nos limites do que aqui denomino social democracia (não podendo ser confundido com partidos abertamente de direita como por exemplo o PSDB que carrega no nome o termo social democracia mas que em nada se relaciona a tal vertente), ainda que este termo deva ser melhor definido para que possamos nos situar no debate.

Há também no livro “Bala Perdida” o setor legalista das polícias que demonstra interesse numa maior “humanização” e preparo das forças coercivas, além de intelectuais e organizações como as Mães de Maio que reivindicam maior cobrança ao Estado e que neste caso específico, certamente por sofrer as consequências diretas do poder do Estado sobre as populações pauperizadas, apresenta uma leitura alternativa a da democracia burguesa. O livro, no entanto, apesar de trazer apontamentos específicos importantes sobre a violência como estatísticas e até mesmo situar a violência como normalmente direcionada a moradores de favelas, negros e jovens, apresenta o que denomino aqui de crítica comum normalmente usada como ponto de convergência entre interesses antagônicos na sociedade capitalista utilizando termos como cidadãos e Estado democrático numa possível busca por uma cidade regida por leis justas numa verdadeira ode ao Estado como tal sem ao menos tocar em questões fundamentais como a divisão histórica entre classes antagônicas e as consequentes lutas entre esses segmentos. Assim colocam os autores:

“A garantia de direitos e a proteção dos cidadãos precisam ser funções primordiais de qualquer política de segurança, e os policiais devem ser formados sob esses princípios. Nesse sentido, é essencial que nos questionemos sobre qual modelo de policiamento desejamos. Queremos uma polícia exclusivamente civil, voltada para a preservação da vida, e não preparada para a guerra e a eliminação do inimigo, que é o cidadão a quem deveria proteger.” (Marcelo Freixo)

A função da PM é garantir os direitos dos cidadãos, prevenindo e reprimindo violações, recorrendo ao uso comedido e proporcional da força quando indispensável. Segurança é um bem público que deve ser oferecido universalmente e com equidade. Os confrontos armados são as únicas situações em que haveria alguma semelhança com o Exército, ainda que mesmo aí as diferenças sejam significativas. (…) O primeiro eixo seria a revogação da atual divisão do trabalho entre as instituições: uma investiga, a outra age ostensivamente sem investigar. Ambas, então civis, passariam a cumprir o chamado ciclo completo da atividade policial: investigação e prevenção ostensiva.” (Luiz Eduardo Soares).

A linha comum que tece a narrativa dos textos acredita na harmonia dentro da construção incansável de “um Estado verdadeiramente democrático e republicano” que construa suas leis de forma favorável ao convívio dos cidadãos que nesse modelo superam o ressentimento de classe numa diferença produtiva onde os direitos substituem a revolução num movimento claro de coalizão partidária e também com o setor legalista das forças armadas. A organização do mercado e sua economia produtiva está, no entanto, no cerne do debate sobre a função da polícia. A função da polícia na história dos países capitalistas não priorizou nem de longe a defesa daqueles que na Constituição devem ser os beneficiários dos serviços públicos. Por isso é difícil crer e legitimar o discurso legalista.  A função da polícia a todo momento esteve a serviço dos grandes interesses políticos e comerciais num movimento constante de produzir miséria e a consequente revolta.

É função histórica da polícia também proibir, criminalizar e neutralizar as manifestações populares e organizações combativas principalmente de orientação anarquista assim como a ocupação sistemática dos espaços públicos em organizações autogeridas. Um exemplo emblemático foi a invasão da polícia italiana a escola Diaz e o consequente assassinato e tortura de militantes por organizar a resistência contra o G8 em Gênova. Por isso, a função histórica da polícia está longe de ser a defesa do cidadão e mesmo seus quadros reformados não estarão aptos a defender interesses antagônicos ao funcionamento da economia financeira. O ressentimento, portanto, não tem como ser anulado em diálogos por mais produtivos que possam ser já que na prática o que se opera são antagonismos entre classes que historicamente enfrentam-se num movimento dialético de superação de contradições.

Por isso pensar a questão da segurança pública implica em compreender os debates que se dão nesse campo e os discursos produzidos pelos partidos de esquerda e demais segmentos de orientação reformista para que possamos chegar a conclusões que não só refute a idéia de disputar as polícias em favor da democracia, mas que coloque definitivamente a impossibilidade de se reformular as instituições policiais como alternativa à emancipação dos trabalhadores abrindo portanto o campo para se produzir um pensamento favorável a criação de forças que enfrentem seu inimigo histórico a partir de uma organização de classe pautada não mais por um programa eleitoral.


Notas:

[1] Estado Autoritário e Ideologia Policial.

[2] Da ideologia ao poder: reflexões sobre o paradigma da humanização policial militar no Brasil.

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6 comentários em “Polícia, dominação de classe e o seu caráter irreformável”

  1. “All cops are bastards”, o conhecido slogan invocado nas lutas globais antifascistas, parece apontar aos policiais de esquerda que não lhes cabe um lugar na arena do embate contra a perversão política das classes dominantes. Como habitantes do vestíbulo infernal de Dante, não são dignos de adentrar o Cosmos divino nem tampouco podem cruzar o Aqueronte rumo aos círculos do Inferno. Encarcerados num limbo soturno, enfrentam a desconfiança de seus próprios pares nos ambientes laborais, onde é hegemônica a visão conservadora; por outro lado, também não são acolhidos nos territórios das batalhas populares, onde sedimentou-se um senso comum que associa os profissionais da segurança pública ao pior da brutalidade capitalista.

     

    Palavras de ordem dessa natureza, a despeito da superficialidade esquemática que refletem, somente encontraram eco na sociedade em virtude de dinâmicas calcadas sobre uma base real e concreta. Candelária, Carandiru, Carajás: a lista poderia se estender por dezenas de páginas. Sob uma perspectiva histórica, é inegável que as instituições policiais carregam a mancha indelével da violência desferida contra as camadas subalternas da população. Sob um ponto de vista conceitual, é igualmente verdadeiro que as polícias se constituem em instrumentos coercitivos das classes dominantes para a manutenção da ordem social. 

     

    Mas é exatamente aí que reside o problema. Ainda que tais afirmativas sejam efetivamente válidas, elas em pouco contribuem para uma real apreensão do intricado conjunto de fenômenos relacionados à esfera da segurança pública. Em outras palavras, o vasto rosário de clichês que demoniza as polícias, encaixotando os complexos sociais numa perspectiva unidimensional, representa um obstáculo para o avanço da reflexão crítica e da transformação da realidade.    

     

    Em boa medida, a compreensão reducionista está ligada ao fato de que as instituições policiais são a face mais visível do aparato estatal capitalista e, portanto, um alvo facilmente identificável para o direcionamento dos legítimos impulsos hostis das classes exploradas. Não é necessário um grande esforço teórico-interpretativo para se perceber que as polícias são apenas uma engrenagem não autônoma do sistema de persecução penal, mecanismo ao qual também se atrelam, de modo inseparável, o Judiciário e o Ministério Público. Esses últimos, todavia, não são o alvo preferencial do desapreço coletivo direcionado aos policiais. Ocorre que, em última análise, são as agências de segurança pública que conferem concretude e tangibilidade às abstrações jurídicas do direito posto. Dito de outro modo, a balança da deusa Justitia não tem serventia sem a companhia da espada brandida pelas polícias.

     

    As organizações policiais estão, portanto, situadas no terreno da superestrutura jurídica, como componentes afiançadores da coercitividade da atuação estatal. Compreender a atuação das polícias implica, consequentemente, adentrar no território das lutas de classe, dos processos históricos e das dinâmicas sociais concretas. Se é verdade que o Estado é a estrutura de comando político do sistema sociometabólico do capital, também é verdade que o Estado é dotado de autonomia relativa – conceito desenvolvido por Poulantzas -, o que significa que o corpo de funcionários profissionais do aparato estatal não se confunde com a própria classe dominante e, mais do que isso, que o Estado burguês, travestido de fiel depositário do interesse comum da sociedade, congrega ações e políticas conciliatórias, gestadas nas lutas entre as classes e entre as frações de classes.  

     

    Por conseguinte, a atuação dos órgãos de segurança pública é profundamente matizada e abriga inúmeras conquistas históricas plasmadas no direito positivo. Assim, compondo o vasto arco de atividades desenvolvidas pelas polícias estão, por exemplo, as unidades especializadas no enfrentamento à violência contra a mulher, na repressão aos crimes ambientais e no combate ao trabalho escravo. De modo semelhante, há numerosas linhas de atuação das agências de segurança pública que, sequer remotamente, guardam relação direta ou indireta com a dimensão da dominação política da classe burguesa, tais como o trabalho de identificação de vítimas de desastres, o combate a incêndios florestais, o controle do trânsito urbano ou a orientação prestada a turistas por batalhões especializados.

     

    Um olhar mais atento, portanto, permite uma compreensão do fenômeno policial em suas múltiplas facetas, para além da caricatura grosseira que reduz a realidade a um monólito uniforme. Tenha-se em conta, por exemplo, que os profissionais da segurança pública são advindos das mais variadas classes sociais, havendo desde filhos de operários e camponeses até membros das camadas abastadas, provenientes da pequena e média burguesia. De maneira similar, a multiplicidade de carreiras policiais existentes nas centenas de agências de segurança pública no País – guardas municipais, polícias militares, polícias civis, bombeiros, departamentos de trânsito, polícias rodoviárias, Polícia Federal, entre outras – congregam tanto trabalhadores que recebem um salário mínimo quanto profissionais remunerados com salários de ministro de Estado. 

     

    Fundamental é perceber que o imenso exército de mais de meio milhão de homens e mulheres que vendem sua força de trabalho às agências de segurança pública são igualmente vítimas da opressão econômica e ideológica do capitalismo. Cuida-se de um dado real e objetivo, que independe do nível de consciência que tais trabalhadores possam demonstrar em relação a esses fatos. 

     

    Sob uma perspectiva da opressão econômica, ressalte-se que os profissionais da segurança pública são, corriqueiramente, submetidos a extenuantes jornadas de trabalho, em condições física e psicologicamente desgastantes, decorrentes de regimes laborados em plantões ou sobreavisos. Aliás, é usual que se imponha a esses trabalhadores uma lógica segundo a qual “polícia é polícia 24 horas por dia”, o que, não raro, contamina negativamente a qualidade do convívio familiar e dos momentos de folga dos policiais. Mais ainda, o contrato firmado entre os policiais e as agências de segurança pública – semelhantemente a um pacto fáustico – expressamente prevê o sacrifício da vida do trabalhador quando se fizer necessário. Uma obrigação dessa natureza, obviamente, carrega consigo um peso muitas vezes martirizante para os policiais.

     

    Ainda nesse ponto, cabe lembrar a reflexão marxiana acerca do trabalho assalariado sob a égide do capital, que resulta em sacrifício próprio e mortificação. A atividade vital do trabalhador é vendida unicamente para se assegurar dos meios de vida necessários, que “nem sequer considera o trabalho como parte de sua vida, é antes um sacrifício da sua vida”. Sua existência verdadeira somente tem início ao fim da jornada de trabalho: “quando termina essa atividade é que começa sua vida, à mesa, no bar, na cama”.

    A dimensão alienante do trabalho policial, somada ao esgotamento psicológico inerente ao exercício da profissão, impõe um preço alto às organizações policiais, as quais se deparam com um quadro epidêmico de doenças psiquiátricas, como depressão, síndrome de burnout e alcoolismo. Vale ressaltar que, estatisticamente, os suicídios são a maior causa de morte violenta entre os policiais no Brasil, superando os óbitos decorrentes de confrontos armados, o que parece desafiar o senso comum reinante na sociedade civil.

     

    Tal estado de coisas, especialmente o senso de isolamento social a que estão submetidos os trabalhadores da segurança pública, foi magistralmente captado por Pasolini, em seu conhecido poema “Il Pci ai giovanni”, escrito em 1968, cujo trecho vale transcrever a seguir (tradução livre):

     

    “E então, veja como se vestem: como palhaços, / com aquela estopa puída que cheira a rancho / estábulo e povo. O pior de tudo, naturalmente, / é o estado psicológico ao qual estão reduzidos / (por umas quarenta mil liras ao mês): / sem mais sorrisos, / sem mais amizade com o mundo, / separados, / excluídos (numa exclusão sem igual);  / humilhados pela perda da condição de homens / por aquela de policiais (ser odiado faz odiar).”

     

    A vitória do consórcio protofascista pelas vias eleitorais, com o apoio massivo dos profissionais de segurança pública, representa um desafio ainda maior a ser enfrentado pelos policiais de esquerda. A matilha de cães raivosos que ora ocupa o Planalto Central sinaliza que aprofundará o projeto da necropolítica: o lumpesinato que habita as periferias das grandes cidades – população excedente e inservível para o metabolismo socioeconômico do capital – continuará a ser imolado no altar da “War on Drugs”, baluarte central da geopolítica estadunidense na América Latina.   

     

    Nesse cenário distópico, em que medida é possível a construção de algum nível de articulação antifascista no campo da segurança pública?  Aqui, creio que convém rememorar a reflexão leniniana em sua obra “Que Fazer?”, relativamente aos limites estreitos da luta econômica imediata protagonizada por sindicatos e entidades classistas. 

     

    Atualmente, as principais bandeiras desfraldadas pelas organizações que condensam a voz coletiva dos trabalhadores da segurança pública restringem-se a propostas de redesenho das arquiteturas institucionais das polícias, seja mediante estratégias de reengenharia dos procedimentos de investigação criminal ou por meio da redefinição de papéis desempenhados por esta ou aquela categoria funcional. Ainda que sejam embalados como projetos centrados no interesse público e vendidos como panaceias capazes de reinventar a segurança pública no País, tais iniciativas, em última análise, prestam-se, essencialmente, ao reposicionamento salarial de carreiras tradicionalmente menos valorizadas. Justas ou não – e o presente texto não pretende se debruçar sobre tais propostas –, o fato é que o viés tradeunionista das entidades de classes das polícias, focalizadas em interesses materiais imediatos, é incapaz de transcender a epiderme do sistema sociometabólico do capital.       

     

    Como bem observava Lênin, a construção da consciência de classe do trabalhador pressupõe que se extrapole a perspectiva da luta econômica para se alcançar o nível da luta política. Assim, não se trata de “obter condições vantajosas na venda de força de trabalho”, mas de construir a “abolição da ordem social que obriga os não possuidores a se venderem aos ricos”. Desse modo, as acanhadas fronteiras do corporativismo das entidades de classe da segurança pública não possuem as características necessárias à construção de uma estratégia consistente de contraposição à hegemonia fascista. 

     

    Enfrentar o fascismo reinante significa, fundamentalmente, contrapor-se à barbárie capitalista e integrar-se às frentes engajadas na construção de uma nova forma de sociabilidade e na emancipação do gênero humano. Em suma, a luta antifascista é inseparável da luta anticapitalista e os trabalhadores da segurança pública, para reencontrarem a humanidade que lhes é negada pelo capital, não têm alternativa além da causa socialista. 

     

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  2. Deixo aqui, como sugestão de leitura, link para o texto “a esquerda da policia: a trajetória dos comunistas na policia paulista (1945-1975)”, que rememora a história da célula do PCB na policia paulista em plena ditadura e narra a trajetória dos policiais comunistas presos, indiciados e torturados pelo DOI/CODI. Porque é muito cômodo enxergar a “policia ” como mera categoria abstrata, em detrimento da análise concreta do fenomeno concreto, matizado, multifacetado e contraditório.
    http://www.encontro2014.mg.anpuh.org/resources/anais/34/1398458705_ARQUIVO_Gabrielnascimento.pdf

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  3. Do antigo site da LER-QI

    Mais uma vez sobre o caráter de classe da polícia

    Por Simone Ishibashi

    domingo 10 de agosto de 2008

    Desde o Encontro de Mulheres da Conlutas, ocorrido em março deste ano, que nós da Liga Estratégia Revolucionária – QI abrimos uma discussão com os companheiros do PSTU que é da maior importância para os revolucionários. Trata-se do debate sobre o caráter da polícia, de suas greves, e qual política os revolucionários devem ter frente a esta instituição repressiva do estado burguês. Sabemos que se trata de uma discussão polêmica, que a tradição petista reinante na década anterior impediu que fosse feita junto à classe trabalhadora, que foi educada no pacifismo por conta da política de suas direções. Entretanto, não podemos deixar de aprofundar o debate em torno desta questão.
    O I Congresso da Conlutas poderia ter servido para discutir com os setores de vanguarda dos trabalhadores que aí estavam a necessidade de forjar uma nova tradição, que pudesse de fato preparar os trabalhadores para os novos embates da luta de classes que estão por vir. Mas ao contrário disso terminou, por conta da política da direção majoritária composta pelo PSTU, referendando o apoio à polícia, suas greves e a participação dos sindicatos de policiais na Conlutas. Num momento em que os operários precarizados da Revap acabam de ser duramente reprimidos pela PM, e que esta segue assassinando trabalhadores, negros, o povo pobre e até crianças, como recentemente aconteceu no Rio de Janeiro, o PSTU insiste em sua nefasta política de seguir dizendo aos trabalhadores que a polícia é parte da classe trabalhadora.
    Infelizmente, no I Congresso da Conlutas uma das votações que a direção majoritária mais comemorou foi justamente a defesa da polícia. Felizmente, tivemos a oportunidade de discutir com setores minoritários, mas extremamente valorosos, que a despeito de não se reivindicarem trotskistas – como a direção do PSTU – tiveram uma posição mais principista em relação à polícia, negando-se a brindar-lhe o seu apoio. Seus fundamentos eram simples: sua própria experiência de lutas, que mostrou claramente o papel da polícia como mantenedor da ordem burguesa e repressor dos trabalhadores na luta de classes. É para seguir este debate com todos os que integram a Conlutas, e todos os que aspiram à emancipação da classe trabalhadora e dos oprimidos deste sistema de miséria, que em nosso país assume um caráter terrivelmente assassino e racista garantido pela polícia, que apresentamos este artigo, no qual buscamos responder aos argumentos apresentados pela direção majoritária da Conlutas para defender a polícia.
    Primeira inverdade: “Os policiais são trabalhadores”
    Esta afirmação contém uma confusão que leva a posições equivocadas. A primeira delas é tratar os policiais como parte da classe trabalhadora devido ao fato de que teriam origem proletária. Aqui há que ressaltar que os policiais podem ter uma origem social proletária, o que entretanto de nenhuma maneira faz com que sigam parte da classe trabalhadora ao se tornarem policiais. Da mesma maneira que Lula tem origem social proletária, mas por sua política governa para a burguesia, o que o exclui como parte da classe trabalhadora. Em outras palavras, o caráter de classe dos policiais não se determina por sua origem social, mas antes pela função social que cumprem.
    O trabalho do policial não é um trabalho como outro qualquer, já que sua atividade consiste em salvaguardar a propriedade privada e reprimir os trabalhadores e o povo pobre. Não se pode confundir o fato de serem assalariados com serem parte da classe trabalhadora, já que seu “trabalho” consiste em assassinar e reprimir os setores explorados e oprimidos da população. Quando se diz que a polícia existe para garantir a segurança, justificativa da burguesia para a existência deste aparato repressivo sem o qual seu domínio sobre os trabalhadores seria impossível, temos que entender que esta pretensa “segurança” é a dos detentores da propriedade privada sobre os que pouco ou nada têm. A “ordem” que a polícia garante é a “ordem” burguesa.
    Trotsky, o grande revolucionário russo que comandou o exército vermelho na Revolução de 1917, escreveu em sua obra Revolução e Contra-revolução na Alemanha: “O fato de que os agentes da polícia tenham sido recrutados em grande parte entre os operários social-democratas não quer dizer absolutamente nada. Aqui também a existência determina a consciência. O operário que se torna policial á serviço do Estado capitalista é um policial burguês, e não um operário” [1].
    Com esta discussão, Trotsky buscava combater a política da social-democracia alemã de negar-se a preparar a classe operária e sua autodefesa frente à polícia e aos nazistas, porque muitos policiais eram parte da socialdemocracia. Trotsky, antecipando as conseqüências desastrosas que esta política teria para a classe operária ao deixá-la desarmada e semear a confiança na polícia, retoma uma questão básica mas muitas vezes esquecidas até pelos que se reivindicam revolucionários: que a existência determina a consciência. Assim, ressalta que os policiais ao reprimirem os trabalhadores e a juventude assumem uma consciência burguesa, de repressores a serviço da burguesia.
    Portanto, educar a classe trabalhadora de que os policiais seriam “inconscientes” do seu papel repressor, ou que também seriam “explorados” como “trabalhadores da segurança pública” é recair na prática nos mesmos erros contra os quais Trotsky advertia à socialdemocracia alemã na década de 30, e se deixar levar por uma concepção profundamente idealista, ignorando as determinações concretas que definem o caráter de classe da polícia. Se a consciência do policial socialdemocrata se caracteriza pela predominância do caráter “policial” sobre o “socialdemocrata” que dirá da consciência dos efetivos da PM, Bope, Polícia Civil e tantas outras hoje em que a violência policial bate índices históricos. De acordo com suas posições defendidas no Congresso da Conlutas, se existissem naquele momento é muito provável que a direção do PSTU teria tido acordo com a socialdemocracia alemã, e não com Trotsky.
    Segunda inverdade: “As greves policiais desestabilizam o regime, portanto haveria que apoiá-las”
    Este argumento, freqüentemente usados pela direção do PSTU para apoiar as greves policiais carece totalmente de uma perspectiva de independência de classe. Não negamos que as greves e paralisações policiais podem desestabilizar o regime. O problema é que esta desestabilização se dá pela direita, na medida em que os policiais ao fazer greve e reivindicarem aumentos salariais, ou ainda “melhores condições de trabalho”, em verdade estão reivindicando melhores condições para reprimir os trabalhadores e o povo pobre. Assim, por mais que as greves de policiais desestabilizem momentaneamente o regime, seu resultado é concretamente um fortalecimento do próprio regime na medida em que se aprimoram as condições sob as quais os policiais exercem seu ofício, isto é, a repressão e a defesa da propriedade privada.
    Mas a questão mais de fundo reside num problema que já vimos discutindo em outras ocasiões com a direção do PSTU. Trata-se da ausência de um posicionamento ancorado nos princípios de classe frente a conflitos em que nenhum dos lados enfrentados corresponde aos interesses da classe trabalhadora. Numa greve policial em que este setor se enfrenta com o regime, os trabalhadores não devem tomar parte de nenhum lado, já que nenhum deles representa ou pode favorecer seus interesses de classe. Ou seja, não são todas as greves que devem ser apoiadas pelos trabalhadores. Por exemplo, a patronal faz greve, também conhecida como lock-out freqüentemente. Os lock-outs também desestabilizam os regimes, mas os revolucionários não os apoiamos, pois se tratam de mobilizações reacionárias, tais como as da polícia.
    Assim, apoiar uma “luta” ignorando o caráter de classe de seus protagonistas é um erro que só pode levar a classe trabalhadora ao engano. Apoiar cegamente uma luta salarial da polícia sem ter em conta quais setores estão em sua linha de frente e com quais fins, nada tem a ver com a prática revolucionária delineada por Lênin e Trotsky, mas sim com uma concepção no melhor dos casos meramente sindicalista, incapaz de levar a classe trabalhadora e as massas a se preparar para os embates revolucionários que terão de travar para se emancipar do julgo da burguesia e de seus agentes.
    Não se pode alimentar junto aos trabalhadores ilusões de que sua solidariedade para com as greves da polícia será posteriormente retribuída quando estes se mobilizarem contra a patronal e os governos. A brutal repressão aos operários da Revap mostra que os policiais não hesitam em cumprir suas funções nem por um segundo. De forma embrionária o enfrentamento entre os operários da Revap e a polícia mostra como a luta de classes engendra duas barricadas irreconciliáveis: a da burguesia, representada pela polícia, e a da classe operária. Cabe perguntar em qual delas se localizaria o PSTU. Neste sentido, o discurso de que “ambos os lados (polícia e operários) sofreram riscos” no enfrentamento da Revap [2], igualando a luta legítima dos operários à ação dos seus repressores é inadmissível.
    Terceira: “Apoiar as greves policiais é uma tática para rachar as Forças Armadas”
    Esta discussão colocada pela direção do PSTU apresenta dois problemas fundamentais que estão profundamente ligados. O primeiro é educar a classe trabalhadora e as massas no pacifismo de que apoiar as greves e tratar os policiais como “companheiros” seria uma política para rachar as forças armadas de modo a fazê-las passá-las para nosso lado. O segundo é que para justificar esta política distorcem completamente a atuação do partido bolchevique em relação aos soldados do exército – e nunca da polícia – na Revolução Russa de 1917. Difundem uma confusão, baseada numa inverdade histórica como se Trotsky defendesse – tal como faz com o exército – uma política para “rachar” a polícia. Para isso apresentam seu apoio à polícia como uma política para disputar as bases das “Forças Armadas” em geral, sem distinção de polícia e exército.
    Frente a isso achamos necessário resgatar alguns aspectos desta que foi a maior obra revolucionária da classe operária em toda a sua história, de modo a desfazer a confusão semeada pela direção do PSTU e lançar luz sobre a importante questão da passagem da base do exército russo para o lado da revolução, elemento crucial para a vitória dos operários sobre a burguesia e o czar, e a conseqüente instauração do primeiro estado operário. Como afirma Trotsky em sua grande obra A História da Revolução Russa: “Indubitavelmente, o destino de toda revolução, em determinada fase decide-se por uma reviravolta brusca na opinião do Exército”.
    Primeiramente há que resgatar em que condição histórica se deu a revolução russa. Sabe-se que naquele momento as tropas do exército russo vinham sendo massacradas na I Guerra Mundial, em nome de interesses imperialistas alheios aos dos trabalhadores e povo russo que avançava em compreender que aquela guerra a nada lhe favorecia. Isso se expressava na base do exército russo, sobretudo entre os soldados de mais baixa patente, que sofriam com a fome, o descaso de seus comandantes e de toda espécie de privações nos fronts de batalha de maneira inaudita. “Esses homens” dizia Trotsky, “(…) deviam prever que seriam enviados para as trincheiras quando no front a guerra já estava perdida, e o país arruinado. Esses homens não queriam a guerra, queriam retornar à vida familiar. Sabiam suficientemente o que se tramava na Corte e não estavam de forma alguma presos à monarquia. Não queriam combater contra os alemães e menos ainda contra os operários e Petersburgo. Odiavam a classe dirigente da capital que se divertia em tempo de guerra.(..)” [3]. Os soldados do exército, haviam feito uma dura experiência com a sua classe dominante e começavam a tirar a conclusão de que para aquela suas vidas de nada valiam, a não ser para serem utilizadas como bucha de canhão em suas guerras. Daí sua posterior radicalização.
    Isso é o que está na base da análise de Trotsky de que as guerras, como continuação da política por outros meios (violência), exigem uma atuação revolucionária resoluta calcada na perspectiva de transformá-la em luta de classes, o que no caso da Rússia durante a I Guerra Mundial significava ter uma política que transformasse o descontentamento dos soldados em motor para a sua adesão à revolução e ao fim de sua obediência aos generais da burguesia em prol dos destacamentos de operários revolucionários. Em outras palavras, tratava-se de fazer com que os soldados virassem suas baionetas, outrora apontados aos soldados alemães, em direção à burguesia russa.
    Mas para isso foi preciso que os soldados vençam a força do costume de uma “disciplina rígida cujas rédeas ficam, até o último momento, nas mãos da oficialidade”. Para isso, Trotsky ressalta que “os soldados são tanto mais capazes de desviar as baionetas ou de passar para o lado do povo quanto mais seguros estiverem de que os sublevados fazem verdadeiramente uma insurreição; de que não se trata de uma simples manifestação (…) Em outras palavras, os revolucionários só podem provocar a mudança no estado de espírito do soldado no caso de estarem eles mesmos resolvidos a arrancar a vitória a qualquer preço, portanto, mesmo ao preço do sangue” [4].
    Feito este primeiro resgate de algumas das mais vivas passagens que mostram que moral permitiu a vitória dos trabalhadores na Revolução Russa, e a adesão dos soldados (novamente, do exército, e não da polícia) retomamos nossa discussão com a direção do PSTU para indagar o que tem a ver esta política, que busca armar a classe operária de que para conquistar os soldados do exército teria ela mesma que estar profundamente convencida de sua ação revolucionária, inclusive violenta, com a política pacifista do PSTU de chamar os trabalhadores a se solidarizarem com as greves salariais de policiais enquanto estes seguem reprimindo os trabalhadores? Uma, a de Trotsky, claramente se baseia no aprofundamento da luta de classes, enquanto a do PSTU nada mais é que uma adaptação às instituições do regime, inclusive repressivas, democrático burguês. Isso porque o processo em que a classe trabalhadora atue de maneira a “arrancar a vitória a qualquer preço”, podendo ganhar um setor dos soldados para sua luta revolucionária, será o resultado de sua intensa radicalização, impossível de se obter se segue perpetuando-se agora na voz dos que se reivindicam revolucionários e trotskistas o legado pacifista típico do petismo de agitar a possibilidade da unidade de lutas com a polícia, ao invés de preparar a classe para os combates que certamente ocorrerão – e como a Revap mostra inicialmente já começaram a se dar – com a polícia.
    E porquê estes enfrentamentos com a polícia seguramente se darão? Porque a função social da polícia, como já dissemos acima, é a salvaguarda da propriedade privada. Assim, quando a classe trabalhadora atentar contra a inviolabilidade burguesa da propriedade privada, pilar do estado burguês, terá que se enfrentar com os cães de guarda da burguesia, a polícia. Já a função do exército é a proteção das fronteiras nacionais. Isso foi o que determinou a diferença da reação dos soldados de baixa patente e da polícia frente à Revolução Russa. A cada uma destas funções corresponde uma determinada consciência, que deriva da existência distinta dos que atuam nestas instituições. Por isso justamente Trotsky nunca levantou a política de solidariedade com a polícia. Pelo contrário ao longo do capítulo da História da Revolução Russa dedicado à revolução de fevereiro, há diversas passagens que retratam a hostilidade das massas revolucionárias para com a polícia, e a devoção e fidelidade desta para com a carcomida dominação do czar prestes a ruir. Assim, relata-se vivamente o apelo dos coronéis fiéis ao czar “‘dai-nos um regimento sólido, e varreremos num fechar de olhos toda esta imundice’ (diziam os coronéis frente à revolução)” ao que Trotsky observava “muitos destes oficiais tentaram a aventura.(…) De onde poderiam eles (os destacamentos contra-revolucionários) provir? O contingente mais firme compunha-se de agentes da polícia, de oficiais da polícia militar (…) que entretanto se mostraram insignificantes frente a magnitude das massas”.
    Em outra passagem “A polícia é o inimigo cruel, inexorável, odiante e odiado. Não se pode mais pensar em conciliação” [5]. Ou ainda:“A batalha nas ruas começara pelo desarmamento dos faraós odiados (nome dos agentes da polícia, grifo nosso), cujos revólveres passaram às mãos dos revolucionários.(…) Para conseguir o fuzil do soldado é necessário, primeiramente, tomar os revólveres dos faraós” [6]. E isso se dará pela força da ação independente, e mesmo violenta, das massas, que será o resultado da mais profunda superação de quaisquer traços de confiança por parte destas às instituições burguesas, sobretudo a polícia. E não pelo apoio às greves da polícia por salários como pretende o PSTU. E isso bem o sabiam os operários russos de 1917 que “armavam as massas, incutiam-lhe as idéias indispensáveis não só contra a polícia do czar como também contra os juristas liberais” [7](grifos nossos). São estes ensinamentos fundamentais que a direção do PSTU distorce as lições do maior feito da classe operária. Não queremos com isso ser dogmáticos. Mas é impossível deixar de dizer que se muitas coisas mudaram desde a Revolução Russa de 1917, o papel da polícia como inimigo de classe dos trabalhadores, não figura entre elas. Sobretudo, num momento em que o predominante não é a ofensiva da classe trabalhadora, mas o recrudescimento da violência e repressão policial contra os trabalhadores, e o povo pobre e negro.
    Por outro lado, como revolucionários marxistas tampouco caímos num fetiche em relação ao exército. Recentemente a burguesia e o governo Lula enviaram o exército para os morros cariocas para cumprir funções policiais. O resultado é o que tomou as manchetes dos jornais com o escândalo da covarde morte de 3 jovens entregues por oficiais do exército a traficantes no Morro da Providência. Novamente existência determinando consciência. Apesar de serem do exército, os soldados ao cumprirem funções policiais mostraram a mesma covardia e brutalidade assassinas tão comuns à polícia.
    Com esta discussão esperamos contribuir, com todas as nossas forças, para que surja uma nova tradição superadora de todas as ilusões e vícios pacifistas, tão disseminados pela tradição petista em nosso país.
    [1] Alemania, La Revolucion y el Fascismo, México DF, pág.15.
    [2] Nota da Conlutas de São José dos Campos de 11/07/2008.
    [3] A História da Revolução Russa, Leon Trotsky, pág.119. Ed. Paz e Terra
    [4] Idem, pág.118
    [5] Idem, pág.108
    [6] Idem, pág.119
    [7] Idem, pág.141

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